O FUNERAL DE UM ILUSTRE CIDADÃO

FINAL - O CATIVEIRO


"Você não sente às vezes, tempero de ar na sua cabeça? É quando o coração bate forte que sentimos cérebro apodrecer no ar. Então você vê numa centelha de tempo, em plena luz do dia, a sua voz sangrando ao vento. Você sabe o que é isso? São encantos que nos assustam. São fantasmas que descem rampas numa breve passagem de tempo". - É a voz da minha mãe! Para onde ela me leva? O que você quer me dizer? De repente, uma luz pisca sucessivamente na escuridão. Eu a vejo! Ela está vem correndo em minha direção esticando os braços como se quisesse me tocar. Um muro invisível, intransponível, com traços de cores em movimento horizontal a impede. Ela está enjaulada no espaço, inerte, quando aos poucos, zumbidos, vozes e grunhidos ensurdecem os seus ouvidos. O que seriam? Insetos alados, asas de um anjo ou tosse gelada de um mago embriagado? Súbito, estrondos e explosões. Sinto voar pelos ares. Flutuo, viajor entre labirinto de estrelas e tornados celestiais. O meu corpo paira no ar e gira, me envolvem com nuvens coloridas e depois, um silêncio total. O meu corpo despenca para um abismo sem fim e mergulha em águas profundas. Tento escapar movimentando os meus braços e pernas. Lá está, a minha mãe! Ela se projeta para frente em velocidade incomum transpassando bloqueios invisíveis e me direciona pelas veredas desconhecidas, escuras e me estanco. Olho para todos os lados e só  vejo a escuridão. Estaria num invólucro? Num um cativeiro humano? Ou dentro de um CHIPS? Sinto-me boiar na água, líquidos borbulham, ouço ruídos, batidas ritmadas semelhantes a de um coração. Apalpo as minhas mãos no corpo e sinto o tórax, abdome, as minhas pernas pequeninas. Metamorfose? Sinto raiva, sinto dores, sinto cravar unhas no aço, vejo chuvas de limalhas de cristal e fagulhas rasgando espaço, vejo os anticorpos luminosos com suas espadas decepando bactérias invasoras. Pausa, silêncio, uma esfera brilhante, uma eclipse, colisões de cores, e de repente uma calmaria, sinto uma sensação de estar num paraíso não identificado. Até quando? Tento-me lembrar das cenas da capela e codificar as imagens, identificar a senha. Seria um bloqueio? Como é possível? Pareço estar aqui há séculos. Desespero-me. Movimento-me sem parar. Enrosco-me em algum lugar. Teias de aranha? Teias! Teias de aranha são obras de engenho, são fios, caminhos, armadilhas, força completa, é a alma, a engenharia da natureza. Sim, vi teias gigantescas na capela. Eram fios prateados que se estendiam para todos os lados onde as pequeninas aranhas se espalhavam em toda a sua dimensão. E no meio da teia, um pequenino corpo humano grudado em seus fios, um feto ainda. Não! Não sou eu! Esses fios parecem ser uma corda fina, lisa, leve como uma seda, mas me enrolo, me enrosco, me atrapalho. Desvencilho-me por um momento, mas um cordão envolve o meu pescoço e aos poucos sinto me sufocar. Vejo o céu transfigurado de rabiscos, estrelas se multiplicam arremessando fagulhas multicores. É bonito! Muito bonito! Não paro de olhar! Consigo pegar o cordão e procuro o seu final. Ele termina no meu umbigo. Eu sou um feto? Estou dentro de uma placenta? Como é possível? Tento respirar e puxo o cordão que me sufoca e aperta o meu próprio pescoço. A respiração fica ofegante. Vejo a incandescência de uma claridade quase explosiva que cegam os meus olhos. Tudo escurece, sinto somente o silêncio dos meus gestos. Utopia.


Herbin acorda e imediatamente dirige-se ao banheiro. Havia dormido com roupa e tudo e sem tirar os sapatos. Olha-se no espelho e vê os detalhes do seu rosto. Era uma expressão mais leve, mas aparentava ter mais alguns anos a mais. Sem tirar os olhos do espelho, escova os dentes. Após o banho, veste uma roupa trivial de trabalho. Estranha do barulho de louças, talheres e copos vindos da cozinha. Ele abre a porta do quarto evitando barulho e dirige-se até a cozinha. - "Zefa? O que você faz aqui?" Zefa, fica estática ao ouvir a voz sem virar-se. - "Doutor Cristo?" Herbin se surpreende e pergunta - "Doutor Cristo? Você ficou louca?" Zefa vira-se vagarosamente e os seus olhos se arregalam ao vê-lo. - "Herbin? Você está falando? Foi você? Como pode? Você era mudo! Agora tem a sua voz de volta! Que maravilha!" Zefa corre em sua direção, beija-o na boca e o abraça fortemente. Sem entender, Herbin retribui a alegria e responde com surpresa. - " Zefa, sempre falei!" - "Não. Até ontem, não falava não! Só que o seu tom de voz mudou e está parecido com a do doutor que te operou! Acho que ele fez transplante!" Herbin ri. - "Zefa! Não existe transplante de cordas vocais!" - "Será que não? Hoje em dia, a ciência tá indo longe! E outra coisa que quero te falar". - "O quê, Zefinha?" - "Atendi um telefonema do seu irmão Marcelo". - "E o que era?" Zefa faz uma pausa enquanto Herbin analisa a sua própria voz com cantorias e interrompe a desafinação e responde com tristeza nas palavras. - "Não sei como dizer. É uma notícia triste". - "O meu time perdeu de novo?" Disfarça. Ela retoma o seu trabalho na pia com passos lentos como se quisesse lembrar algum vocabulário. - "É coisa séria. Sabe o Antonio? Acaba de falecer". Herbin para de cantar e pergunta com mudança repentina na expressão em seu rosto. - "Quando? Como foi? Que horas?". Zefa continua lavando louças e responde com voz baixa. - "Hoje, às 7,30 da manhã. Teve problemas nos pulmões. Seu irmão disse que ele não suportou a falta de ar". Zefa intensifica o seu choro, ele a reconforta e depois, dirige-se ao computador e entra na MSN procurando por William. Ao abrir a tela, os seguintes dizeres: - "Herbin, consegui! Foi às 7,30 exatamente! Ele está bloqueado temporariamente". Ao ouvir o horário, ele vai até o quarto e relê o final do livro.


- Eu sou um feto? Estou dentro de uma placenta? Como é possível? Tento respirar e puxo o cordão e cada vez mais e sinto apertar o meu próprio pescoço. A respiração intensifica. Vejo uma incandescente claridade e os meus olhos cegam e tudo escurece. Sinto somente o silêncio dos meus gestos.


Herbin corre até a cozinha e chama pela Zefa. A questão do tempo o faz confundir. - "Zefa! Estou morando aqui há quanto tempo?" - "Faz alguns meses, desde que nós nos casamos. Você não se lembra?" Herbin, com olhar perdido no ar e ludibriado pela memória, tenta em vão fazer um retrospecto dos últimos meses. - "Nós somos casados?" - "Herbin! Não se lembra? Perdeu a memória dos dias mais felizes de nossa vida? Depois do seu tratamento, os seus pais se resignaram e permitiram o nosso casamento. Teve cerimônia e tudo! Teve padre! Teve aliança! Cadê a aliança? Você perdeu?" Herbin fica confuso e imagina o outro Herbin. Lembra-se do outro, o intruso intrínseco que ele expulsou do corpo e se indaga sobre ele próprio e da legitimidade de sua alma. "Preciso procurar a aliança. Não sei onde a deixei. Nem pareço eu próprio". - "E não parece mesmo! Depois a gente procura o anel. Você parece outra pessoa. É melhor você não beber mais" - "Não costumo beber". - " Tá! Me engana que eu gosto! Vai me dizer que não se lembra daquela surpresa no hospital?" - "Que surpresa?" - "O teste do DNA! O seu pai verdadeiro se chama Anibal. Ele foi ao seu casamento. Aconteceram muitas coisas quando você esteve em coma. A imprensa divulgou o acidente". - "Zefa, o meu pai biológico se chama Anibal? E Antonio?" Zefa respira fundo e prossegue. - "Antonio foi um grande engano. A sua mãe teve contatos com Anibal na mesma época. Estou espantado por você não se lembrar. Você conversou com Anibal e se deram muito bem". - "Não me lembro". Herbin se espanta com essa revelação quando Zefa prossegue. - "Então, paciência! Com o tempo, estará tudo explicado! Vamos nos aprontar? A dona Vera e o senhor Leccon estão nos esperando no estacionamento. Hoje é seu aniversário. Vou adiantar e retirar o carro da garagem. Temos uma longa viagem. O almoço vai ser num restaurante na beira da estrada que vai para Lemópolis, se lembra?" - "Me lembro. É um ótimo restaurante". Zefa continua. - "Que bom você se lembrar pelo menos desse restaurante. Seu pai vai conversar com você sobre um executivo americano que brevemente visitará a agência". Ele fica estático e pensativo. - "Um americano? Parece que já vi esse filme antes. Meu Deus! Meu aniversário! Hoje?" Zefa, responde abrindo a porta.- "Te espero lá fora!"


Antes de sair, Herbin consulta o MSN e lê: - Herbin, sou um vencedor! Ganhei o jogo! Terminei a história! Até outro dia! Você não tem mais o que fazer". - "Will, onde começa e termina a história? No cinema onde Tadeu foi baleado? O filme dele acaba aí! Qual é o meu papel?" - "Lembre-se do que você viu na capela de J.J. E essa história se repetirá com Tadeu em Zurique."


Ao fechar a porta, Herbin começa a se lembrar de alguns detalhes. Olha a parte superior dos cantos da parede e vê as câmeras montadas. - "Será que ele lembrou-se da senha?" Na mesa havia um cálice cheio e ao lado, um litro de vinho branco.


- "Estranho, pensei que Zefa tinha guardado a garrafa. Será que é um simples jogo? Agora é real!"

Herbin vai até o computador e digita.


- "É o que você pensa, William! O jogo e a história está longe de acabar!"


FIM


Referências: Folha de São Paulo, JT, Estadão, Veja, Época, Super Interessante, Revista de Capoeira, ScientificaAmerican.


Referências de filmes e histórias: O Médico e o Monstro, Branca de Neve e os Sete Anões, Chapeuzinho Vermelho, Frankstein e 2001, uma odisséia no espaço. As referências inverossímeis e absurdas são por minha conta.

 

 

 

 

O FUNERAL DE UM ILUSTRE CIDADÃO

FINAL - O OUTRO



"Entro na minha sala de estar e sinto sensações estranhas. Era como se alguém me vigiasse, por isso, vistorio cada canto da sala e descubro que há pequenas câmeras em locais estratégicos em conexão com o Notebook. Pergunto-me, quando é que instalei essas geringonças? Paro e tento me lembrar enquanto caminho para a cozinha verificando detalhes da sala. Há louças para lavar. Tenho certeza de que não havia nada pendente. Era o meu costume deixar o local limpo ao sair. Ao pegar um suco na geladeira, noto que os queijos desapareceram. Volto para a sala com um recipiente cheio de gelo e no barzinho, preparo uma bebida. Dou um gole e tiro do bolso direito do meu blusão, o livro do meu pai Antonio e ao enfiar a mão no esquerdo, outro livro, com o mesmo título. Então, realmente visitei Marcelo duas vezes? Fico estupefato. Sento-me na poltrona com olhar suspenso no ar e tento me concentrar para fugir das minha inquietações. Após minutos, o vazio paira na minha mente. Mais calmo, resolvo dar inicio à leitura.




Acordo com um dos livros no chão. Olho ao redor da sala. O drinque está pela metade, certamente, devo ter consumido no meio do sono. Há também uma garrafa de vinho branco e um cálice com resto do líquido. No canto, a tela do Notebook mostra a minha atual movimentação. Dirijo-me até a mesa, clico o mouse e aciono o DVD gravado e dou o retorno para ver o que teria acontecido durante o meu cochilo. A câmera capta a minha chegada quando abro a porta até o início da leitura. Vejo-me na tela adormecendo aos poucos, o livro cai e após alguns minutos, acordo, e para minha surpresa, estou caminhando e olhando para cima de um lado a outro pronunciando palavras! Como é possível? Estou falando!" - "Engraçado! Não me lembro de ter preparado esse drinque! Ei! Tem algum intruso nessa residência? Apresente-se!" ELE vasculha o ambiente da sala com com olhares determinados, e vagarosamente, visita o quarto e o banheiro, volta com as mãos na cabeça como se sentisse dor de cabeça, senta-se para respirar fundo e fixa o olhar para o teto e balbucia. - "Será que sou portador de sonambulismo? Não, deve ter alguém na sala. Eu sinto!" Extenuado, aumenta o tom de voz. -"Ei! Quem é você? Apareça! Você está atrapalhando a minha vida!" Exausto, acalma-se e faz uma pausa forçada, pega o copo, toma um gole e olha com detalhes, cada objeto na estante, os quadros nas paredes e até cortina na janela. Era outro rosto, outro comportamento. ELE se exprime movimentando a sua face como se estivesse falando, e abre os olhos mexendo para os lados. Levanta-se, posiciona as mãos e olha para as câmeras e emite linguagem de sinais. - "Eu que lhe pergunto! Você é que está me consumindo, me usando, você não tem esse direito! Quem é você?" Fico estático e assustado com a transformação. Era como se tivesse recebido um choque violento e arremessado como uma flecha no alvo. Segundos depois, ELE se manifesta, sentando-se na poltrona. - "O que você está dizendo? Está maluco?" Percebo então que no vídeo, há um diálogo com uma pessoa em duas, uma intersecção? Parecia até um encontro decisivo para definir uma questão. Levanto-me e caminhando pela sala, olho para o retrato da família na estante, analiso e pergunto sobre o passado. ELE entende bem os meus gestos. Aponto o meu dedo para a foto. - "Diga-me quem é Vera e Leccon". Ele começa a andar de um lado a outro com as mãos para trás e de repente, estaciona num canto da parede, suspira com olhar parado e me responde. - "Ora, meu rapaz! Você não tinha pergunta mais óbvia do que essa? Vera era minha mãe, Leccon era o meu padrasto. Ela era uma cantora lírica. Conheço-a como nunca. Leccon era publicitário. Ambos falecidos". ELE tapa o rosto com as duas mãos e desliza para cima ajeitando os cabelos. ELE faz uma pausa, pensa, respira fundo e expira quase assoviando. - "Meu caro amigo, os filhos, sejam eles biológicos ou não, devem conhecer os hábitos da mãe. Agora que tenho essa oportunidade, aproveito para perguntar-lhe: Além dela cantar, o que mais adorava fazer nas horas vagas?" No vídeo, emito uma expressão de tolo, com olhos fincados no ar tentando furar a minha cabeça e retirar os pensamentos com as mãos. Aturdido com essa pergunta impertinente, instintivamente procuro o drinque e bebo um gole. Os sinais e gestos não vinham, fugiam. Será possível que há algum obstáculo? Uma trava? Amnésia? De repente, ELE solta uma gargalhada. A expressão facial se modifica. ELE é mais ativo, tem memória e fala rápida. - "Ah! Meu camarada, pelo jeito, você não poderá me responder! Respondo por você! Pois bem, sabia que antes de conhecer Leccon, ela vinha até Lemopólis visitar Lisa, sabe a Lisa? Era a sua filha com roceiro, a minha irmã. Ela veio depois de mim, filha independente. E depois de Leccon? Ele tinha um haras, era rico. Eu sei tudo, meu amigo! Ela se refugiava e ficava horas cavalgando em seu cavalo branco, sabe para que? São atitudes estranhas, mas entendo sim, que era para sentir a celebração da sua liberdade. Não está entendendo, não é mesmo? Quando jovem, ela sempre esteve presa dentro de si mesma, os seus sonhos e pesadelos sempre vinham acompanhados por um cavalo branco percorrendo em nuvens de fogo. Já houve casos assim. Eu li. Era um signo, algum ruído que encobria a sua alma, essa imagem tinha algum significado. Quem pode explicar isso? Jung? Freud? Você não sabia disso? Pois é, meu camarada, eu também desejo a mesma coisa. Quero liberdade em meu ser, e aqui, devo anunciar-lhe que um está sobrando, não cabem duas almas em nós." ELE dá uma pausa. Pega um cálice no barzinho e sem pressa, abre um vinho branco, cheira e toma fazendo o líquido passear dentro da boca como se estivesse a gargarejar e devolve o copo à mesa. De repente, ao analisar-me no vídeo, percebo que quando procuro por bebida suave, sofria alguma transformação. Respondo com sinais rápidos. - "Esse aparelho na orelha não te incomoda?" ELE mexe na orelha, retira o aparelho e guarda no bolso. - "O que é isso? Fone de ouvido? Não tinha percebido!" De repente, ELE fica estático e aproveito da minha ansiedade para iniciar gesticulações mais movimentadas. - "Você nunca percebeu esse objeto em sua orelha? Pois é, você é secundário, depois de mim, sou o Herbin original! Você via uma ave? Ouvia vozes proferindo palavras ao vento? Você nasceu depois daquele acidente de carro! E só agora estou entendendo a minha situação depois da história de Tadeu em Evilate! Você é o doutor Cristhopher!" Vejo que esse nome havia transgredido o seu limite. Num intervalo de segundos, ELE responde lacônico. -"Não, é claro que não. Não sou paranóico! Não sou o doutor a quem está se referindo!" Era necessário atenção no vídeo, pois era difícil distinguir quem viria a responder primeiro. Era excesso de paradas, pausas e tiques confundiam os meus olhos. Retiro o meu aparelho de surdez do bolso, encaixo-o na orelha novamente e aumento o volume porque as suas palavras se misturavam com a minha linguagem de sinais. - "Uma ave! Uma enorme ave branca com mechas coloridas na cabeça! Ela sempre pousava no telhado de casa, imponente e vistoso, e quando ela partia, corria em seu encalço tentando voar, você se lembra? Eu sempre ouvia vozes pronunciando uma frase. Isso também tem um significado. Quem é que explica? E você? Não sonha? Não tem pesadelos? Você não é humano?" Sento-me na poltrona, cruzo as pernas. Percebo a mudança. Os meus olhos se saltam, mexem para os lados e continuo a assistir. ELE se manifesta como se fosse uma ofensa e solta a voz. - "Fantasia! Irreal! Genérico! Você é uma invenção, uma alma periférica! O que você via era uma galinha preta com duas velas vermelhas acesas, você é um encosto que voará do abismo. Você é subjetivo! Abstrato! Você não passa de um sonho! Pesadelo! Você é um ser perdido tentando furtar a minha personalidade com planos insidiosos!" Por ELE ter proferido palavras corrosivas, fico totalmente absorto e me vejo prendendo os sinais com os punhos fortemente cerrados. Repentinamente, ELE toma uma atitude assustador, arregala os olhos e corre impetuosamente em direção ao Notebook e entra no MSN. A câmera capta os dizeres na tela. - "William, o que você acha disso? Rápido, me responda! Como posso me livrar desse cara?" A resposta vem imediatamente. - "Não é possível convertê-lo em outra pessoa e nem matá-lo. A minha intenção era que vocês se submetessem à harmonia até o fim. Como não há entendimento entre partes, talvez tenha que bloquear um dos dois. Mas a história não pode ser mudada. Temos que buscar outros rumos, outros atalhos. Realmente, o problema está tomando dimensões superiores. Não estou podendo controlar a situação. Se não houver alternativas, o futuro estará incerto para um de vocês. Então, vamos procurar um caminho. Lembra-se da capela de J.J.? As imagens vistas pela fresta da janela? Tadeu viu e você também. São imagens diferentes, uma representando a vida e a outra, a morte. Pode me responder o que você viu?" ELE responde com naturalidade. - "Eram imagens do futuro, imagens que nenhum homem suportaria ver. Um pesadelo! Eram imagens distorcidas, rocambolescas. E entre névoas vermelhas, insetos matemáticos sobrevoavam um cadáver plastificado! As crinas do sol perfuravam seu corpo espichando sangues torrados e criavam raízes no asfalto. Era o doutor Cristo! Dois vultos, duas sombras. Eram eles, pelo andar, pelos seus gestos, tenho certeza! Tadeu e Marcelina comandavam a operação. O doutor estava inerte, morto, de pensamentos congestionados, de explosões trigonométricas em sua cabeça. Os insetos obedeciam ao casal com sorrisos cibernético. Eles o levaram para bem longe, para o infinito, provavelmene para imprimir a atmosfera de amanhã. Estavam em viagem à Zurique para um encontro com Doutor Cristhopher". William faz uma pausa e as palavras vão surgindo. - "Você teve um sonho apenas. Não confunda as coisas! Tadeu não será um assassino! Ele tentará um acordo, um dálogo franco e resolverá a questão que tanto o aflige: o CHIPS! E não vá pensando que será fácil. O casal ficará por um bom tempo em Zurique e não dará notícias aos familiares." ELE pergunta com ceticidade em suas palavras. - "E a sobrevivência num país estrangeiro?" Will é imediato ao responder. - "Cedo ou tarde, Tadeu terá que usufruir dos poderes do CHIPS implantado". ELE - "E pode se confiar num CHIPS? Ele dependerá das reações químicas do cérebro. Se houver um composto químico desconhecido? Tudo poderá mudar". Will demora a responder. - "Só o tempo dirá. Talvez você tenha razão. Ninguém sabe de nada sobre o futuro. E por acaso, você sabe o que ele viu na capela? Você tem uma idéia?" - "Will, Não sei. Se ele é a vida, certamente serei a morte". William, sem espaço de tempo, responde. - "Herbin, dependerá muito da interpretação do momento de cada pessoa. Às vezes, a vida poderá ser vista de uma maneira horrenda e a morte, de uma visão suave e delicada. Para algumas pessoas, a morte poderá representar uma poesia. E a vida, brutalidade e a dor". ELE fica curioso e pergunta mais sobre o seu primo. - "Uma pergunta: o destino de Tadeu! Ele presidirá a usina no lugar de seu pai Jorge que se encontra preso? Como ele fará? Ele não está sendo procurado pela justiça?" - "Não, Herbin, Tadeu será ajudado por alguém dentro hierarquia da polícia e ele não saberá por quem. O nome do Wagner será colocado no lugar dele. E você é o tal homem misterioso que filmou o assassinato do J.J." - "Mas eu não o filmei. Era CHIPS, se lembra?" - "Sim. me lembro". - "Eles vão me encontrar, Will?" - "Talvez não. Estamos num país maleável, mas nunca se sabe." - "Obrigado, por enquanto. Então, Will, livre-me desse intruso o mais urgente possível!" Will faz uma pausa e volta a escrever. - "Acionarei uma tecla que fará ele viajar pelo tempo e relembrará a sua vivência. Ele terá duas alternativas, X e o Y. Se a escolha for o atalho X, ele será bloqueado e preso e lá será o seu cativeiro, dentro de um CHIPS. E farei o mesmo com você". ELE olha para o copo. E eu aqui, assistindo ao vídeo e torcendo para que ele beba. ELE pega o copo e desiste. William continua a sua escrita. -"A escolha do Y terá como consequência, a sua eterna companhia". No caminho da cozinha, ELE volta e não resiste. Bebe. Sente o sabor da bebida e o paladar aciona outros sentidos. Subitamente, corro até o Notebook e começo a digitar estabanadamente. - "Will, por favor, você está favorecendo um intruso! Por que a sua preferência por ELE? Sim! Notei! A cena da capela! Eram cenas horrendas, inverossímeis! Pesadelo!" A resposta vem imediata. - "Não é preferência! É uma opção. Depois ELE terá a sua vez! Sinto muito, Herbin. Já acionei o programa. Mas não irei deletar porque eu me tornaria um assassino. Encontrei uma forma mais convincente. Foi você que viu a cena mais horrenda. E você havia me solicitado que o "desconstruísse", não se lembra?" Fico pasmo na tela com olhar perdido. Havia me esquecido. - "Lembro. Will. Eu desejo existir. Desisti da morte! Pare com isso!" Will continua. - "Você verá daqui a pouco. É suave e é melhor para você. Será como o nada. Você não se lembrará de que existiu! Mas você é que irá decidir. O atalho Y é a sua esperança". - " O Y, virtual?" - "Sim, você é quem decidirá, buscará forças para sobreviver. Você concorda? Você carregará uma senha. Essa senha será a interpretação correta do que você viu na capela. Os dois se enganaram a respeito da visão na capela. Se você descobrir a senha, você se libertará do cativeiro e voltará imediatamente!" Vejo-me, desolado, taciturno e a tela me mostra como se estivesse adormecendo. E aqui estou, esperando nessa poltrona como se fosse condenado à cadeira elétrica sem poder de reação. Por que fui falar em "desconstrução. Terei forças para compartilhar o meu ser?" Vou até o Notebook e ativo as câmeras e volto a me sentar. De repente, os olhos começam a adormecer. Sinto dores de cabeça e as imagens da sala ficam desfiguradas. Levanto-me cambaleando e me dirijo até o quarto, deito-me exausto. No criado mudo, vejo um pequeno caderno. Folheio-o e identifico. Era o diário de Lisa com anotações completas sobre a mãe. Deixo cair o meu corpo na cama pela decepção. ELE havia lido todo o diário e sabia dos detalhes da vida particular da mãe e noto que Lisa tinha relações estreitas e secretas. Tento de todas as maneiras, permanecer-me acordado. Tudo gira. As imagens começam a surgir como se fosse um sonho. São imagens fragmentadas, rápidas retornando ao passado. Vejo a cidade de Evilate, Marcelo, a irmã, tia, Antonio e numa passagem mais acelerada, todos os acontecimentos em retrocesso. Viagem incrível e ainda consigo me lembrar. As vozes, as cantorias de Vera, o pássaro, o cavalo branco e até os SEUS assassinatos na Toca do Inferno no Piauí. Era como se os fatos tivessem sido jogados no liquidificador e fossem triturados aos poucos. E os Riveiros, questiono-me, será que eles existiram? Como seria a história sem eles? E Lisa? Será que não teria sido um ruido, um elemento estranho que entrou no quadro? E JÕ? O que os Riveiros fizeram com o corpo de J.J. não tem cabimento. Afinal quem são eles? São seres fictícios, são virtuais? Tudo isto que estou passando é um jogo? O meu desejo é de visitá-los. Os Riveiros estarão presentes em sua propriedade? A presença deles e da Lisa na história teria sido uma aberração dentro da história? O que William pretende? Num momento, me acalmo. Tudo gira em torno como se estivesse embriagado. Sinto os meus olhos fecharem. Estou no escuro. Ouço vozes ao longe, são ecos, sussurros. Uma figura feminina, um homem, provavelmente o meu padrasto, um cavalo branco e outros vultos parecem flutuar no espaço. Ajeito o meu aparelho de surdez. Começo a entender algumas palavras. São vozes. Pareço estar em outra dimensão. Ouço sussurros ao longe. Eu sei, é da minha mãe".

O FUNERAL DE UM ILUSTRE CIDADÃO

"Troco rapidamente o pneu por uma estepe quase na entrada de Lemópolis. Não entendo porque o carro está em sentido para a Capital se estava ao caminho contrário? Estou atrasado e por isso, rapidamente dou meia volta e aciono o carro para o sítio.

Vejo muita gente ao redor do enorme casarão. Estaciono o carro longe de uma jaqueira, nunca se sabe, cair uma jaca sobre o carro, qual companhia de seguros vai pagar? Vejo inúmeras pessoas sentadas ao redor das quatro mesas compridas sob um enorme barracão. Ao lado, há várias pessoas cuidando do boi no rolete. Há crianças correndo para um lado e outro, adultos jogando futebol "soçaite" e alguns adolescentes praticando basquete. Reconheço o Marcelo, meu meio irmão. Ele corre preocupado em minha direção e contenho o meu sorriso quando ele me pergunta indignado. - "Herbin, o que houve?!" Logo gesticulo para que ele saiba que tenho problemas para falar e ajeito o meu aparelho de surdez. Ele me causa surpresa com a expressão em seu rosto como se tivesse me visto pela segunda vez. - "Esqueceu alguma coisa?". Fico indeciso e respondo com gestos um tanto bruscos. - "Não estou entendendo! O que houve? Eu que lhe pergunto!" Marcelo pensa, me analisa com olhares pensativos e decide falar. -"Você não se lembra? Você esteve aqui e estava falando, conversou com muita gente!" Fico paralisado. Não me lembrava de nada. Fiz uma retrospectiva rápida sem encontrar lacunas, exceto o estouro do pneu dianteiro. Para tirar as dúvidas, volto até o carro. - " Eu parei somente para trocar pneu". Abro porta malas e mostro o pneu inutilizado. Fecho os olhos, me apoio no carro esfregando o meu rosto com as duas mãos. Lembro-me. O carro em direção contrária. Deve ter ocorrido algo de forma estranha e resolvo me render por impulso.  - "Desculpe-me, meu irmão, mil perdões. Surtei. Esqueci de tomar remédios hoje. Surtei". Marcelo apoia o seu braço no meu ombro e me consola. -"Você não pode desviar das recomendações médicas. Vamos à mesa, lá tem água e aí, você toma o remédio. Volto já!". Ele se afasta, sento-me a mesa e aproveito para degustar uma deliciosa caipirinha e uma suculenta picanha. Marcelo volta com uma garrafa de água e se surpreende ao me ver com apetite de cão e rapidamente, gesticulo a ele que poderia beber porque não havia tomado remédios. Ele se agita e acena para alguém e ao mesmo tempo me atende. - "Você está comendo e bebendo as mesmas coisas da primeira vez". Na verdade, estava faminto, a troca de pneu havia me desgastado, quando uma moça se aproxima. - "Herbin, pensei que você tinha ido embora!" Era a minha meia irmã, não me lembrava mais do seu nome e para evitar constrangimento, abracei-a forte. Ela era especial para mim. Esses dois sempre me receberam bem nessa casa, apesar da diferença de idade. Os dois conversam a sós, preocupados com a minha conduta. Sinto-me mal e logo me conduzem até o interior da casa e vejo a minha tia sentada numa cadeira de rodas, com um excelente alto astral. - "Olá Herbin, que prezer em vê-lo novamente! Esqueceu alguma coisa? A minha meia irmã chega a nossa frente e cochicha em seus ouvidos. A tia me estranha o fato de me comunicar com sinais. - "Oi tia!" - "Herbin! Obrigada por vir!" Ajoelho-me a dou-lhe um abraço carinhoso e o mais importante, não demonstrava de maneira nenhuma, ter mágoas da Vera, e por isso, a minha admiração. A tia me olha preocupada, me levanto e os dois me tomam pelo braço e me levam para um quarto repleto de livros. Era o meu pai Antonio, deitado na cama, debilitado, magro e cabelos brancos e densos. Ela cochicha também em seus ouvidos. O corpo me arrepia por inteiro. O coração acelera. Choro, uma coisa rara em mim. Ele me reconhece e abre os braços para me receber com sorriso tamanho de um ônibus. Ele tenta me dizer tantas coisas ao mesmo tempo com sua voz fraca que tenho dificuldade em entendê-lo. Certamente, ele sabe do meu problema. Aproximo-me e me diz em meus ouvidos. - "Leia o meu livro até o fim". Ele me entrega a 3.a parte do "Vivendo depois da morte". Fico feliz por ter conseguido publicar e Marcelo ao lado me diz algo. - "Conseguimos publicar este livro, agora por meios mais convenientes". Percebo a brincadeira e respondo com sinais e com sorriso. - "Desta vez, sem filho independente!" Os irmãos riem mas são chamados e se retiram para atender as outras visitas. Folheio algumas páginas. - "Obrigado, pai".    

O FUNERAL DE UM ILUSTRE CIDADÃO

"A estrada é um tapete, deslizo como se estivesse numa lancha. O céu da tarde está limpo e cristalino, mas os meus pensamentos se esvaem como nuvens negras anunciando chuva. Preocupo-me por ter entrado na história e não conseguir sair. Lembro-me que que tenho um compromisso no Sábado em Lemópolis, uma reunião informal de parentes, uma churrascada. O meu pai Antonio quer me ver e eu também quero vê-lo. E para isso, necessito sair dessa história. Estou adiante alguns dias e é preciso regredir. Lembro-me que Tadeu foi baleado no interior de um cinema e a sua história prosseguiu na tela. É necessário que ele retorne. O que teria acontecido na realidade? Tadeu seria preso? Recordo-me que William interrompeu a ficção e eu, recuei a ordem cronológica da história, fui para Evilate e passei reescrever na mesa de um bar no momento em que a Marcelina saía da cidade. E agora, fiz o mesmo procedimento para sair de Evilate. Sentei no bar, pedí o café e passei, digitei para  retornar à realidade, mas confusão vem à tona, me pergunto, estou real ou estou ficção? Creio que é necessário William interromper-me e tomar rédeas da escrita. É isso! William!

O cansaço me domina. Sirvo-me de um vinho vinto seco, pego queijo na geladeira e corto em pedaços regando com azeite e sento-me na poltrona. Aprecio o petisco e a bebida até a metade. Ligo a TV e nas primeiras imagens de um programa jornalístico. Confortabilidade de uma poltrona me leva ao sono.

Acordo. Surpresa. A TV está desligada, procuro o vinho e o queijo na mesinha e por incrível que pareça, não os encontro. Vou até a pia e lá estão a garrafa, o copo e prato vazio. Não me lembro de ter consumido tudo. Ou alguém teria me visitado e entrado durante o meu sono?  A empregada? Não, é quase de manhã. Sinto que há alguém no recinto. Vou até o quarto e a cama está desarrumada, o box do banheiro está molhado. Ou, na pior das hipóteses, me pergunto, há alguém morando comigo? Há quanto tempo? Tenho absoluta certeza que o Notebook estava desativado, nem cheguei a tocá-lo. Miro a tela com surpresa, há muitas imagens de páginas de jornais do Brasil inteiro e leio as manchetes: "BOMBA! A PRIVACIDADE DOS CIDADÃOS AMEAÇADA", e na citação abaixo, O ministro da justiça, um delegado da PF e um usineiro são investigados por espionagem ilegal; "O BANDO DE CRISTO É DESFEITO", e na linha abaixo, A PF desbarata uma quadrilha clandestina de cientistas; "TIRO NO CINEMA", e na nota explicativa, Um ex-delegado de Evilate atinge um membro da quadrilha de cientistas, leia na página 5. Pego o mouse e clico para dias adiante: "A NANOTECNOLOGIA A SERVIÇO DO MAL", e abaixo, Os CHIPS nanotecnológicos são implantados em seres humanos", "A ERA DAS ALMAS DIRIGIDAS"; "EXPLOSÃO NA CLÍNICA DO DR. CRISTO"; "EX-DELEGADO MATA EX-PREFEITO", Um homem misterioso filmou o assassinato do J.J. E este me despertou atenção ao mencionar um suspeito misterioso que registrou as imagens  no celular no caso do assassinato de J.J. Eu, Herbin, procurado pela polícia? Não, não me permitiria tal coisa. Inconcebível! E Tadeu, onde estaria? E o senhor meu tio, Jorge, conseguiria um "Habeas Corpus"? Essa história estava indo além do que imaginava. Fico ansioso e nervoso, pego uma bebida forte na prateleira e um copo e me sento na poltrona contrariando as recomendações médicas e imagino até onde iria terminar essa história. Desligo a máquina. William estaria interferindo na história no momento? Ele estaria concluindo a história? Provavelmente, o meu destino seria a cadeia. Fico arrasado e bebo demais e não vejo mais nada. 

Acordo assustado. Levanto-me e vejo a garrafa de vinho vazia e degusto o restante do queijo. Que pesadelo! Seria o futuro? É ficção? O micro ligado não me deixa mentir. É o presente. Sonhar com o futuro sempre é melhor do que ter sonhado. De repente vejo uma garrafa e um copo a mais. Na tela do computador, vejo uma mensagem de William. - "O que você acha do sonho que teve?" Sonho? Pesadelo, Will! Se continuarmos essa história com esse rumo trágico, se eu for mesmo um personagem de ficção, me descontrua, William, me desfaça sem dó! Cadeia jamais! Não deixe que a história chegue até a mim. O final da história seria Tadeu baleado no cinema e ponto final". William me responde com muitas exclamações. - "Herbin, que comodismo! Você não viu que essa história não tem volta? Você está sendo procurado, você é o suspeito misterioso! Você deixou as impressões digitais no celular. E tem outra, essas impressões também foram encontradas no Piauí. Lembra-se daquela arma? Lembra-se também que houve mortes, para não dizer, chacina?" - " Lembro sim da arma, mas não sei onde a deixei. Mas não me lembro das mortes, Will! Ei!, deixe-me dizer algo, você não acha que é um exagero de problemas em cima de um personagem?" - "Sim, mas as circunstâncias levam a isso". - "Will, no momento, estou fora dessa história, vou me permitir a visitar o meu pai em Lemópolis. Quero descansar, vamos juntos?" - "Não. Tenho um compromisso". - "Eu sei. Você vai continuar com a história." 

    

O FUNERAL DE UM ILUSTRE CIDADÃO

"No meu quarto de hotel, tomo um banho, deito-me na cama e ligo a TV e resolvo ler o extenso diário de Lisa. Folheio cada página, descarto assuntos cotidianos e procuro por mais condizentes. Há versos românticos, frases desconexas, redações sem vírgulas, frases misturadas em caixas alta e baixa, auto-retrato de si mesma em traçados infantís, desenhos em cores berrantes e inúmeros versos de amor ao Tadeu. Interesso-me estranhamente por frases com perguntas e respostas sem parágrafos, como se ela própria tivesse as manipulado na medida em que os fatos vinham à tona. Inicio a leitura exatamente nessas páginas quase indecifráveis.   

Dia 01/05 - Quem és tu, minha mãe, que um dia te vi suplicar a Deus para me protegeres? Tu me dissestes: Sou cantora de Deus, envio a minha mensagem através da música. - E quem sou eu, que nasci sob a tua égide, fruto de um amor ocasional? Quem é este homem do campo que te abrigou em teu relento e te passou a magia do amor? Aonde é este o lugar onde moro? Um paraíso?  É aqui que tudo aconteceu? E o meu pai, o que te atraiu? Foi a tua virilidade solitária, humilde ou a tua sonora voz salpicada de mistérios? Foi providencial a tua estadia no campo? - Sou tua mãe eternamente. A tua vida é a minha e tenho feito orações para ti em todos os momentos da minha vida. Sou cantora lírica, canto para Deus e para o povo, canto a fé, tu sabes, pois já assististes ao meu espetáculo. Tu és a filha minha com o teu pai que sempre te acolheu. Foi um amor mágico e divino, pois necessitava colher este fruto e Deus me permitiu neste lugar tão bonito. O teu pai surgiu como um estranho santo. Ele era o meu anjo. Ele ouviu o meu canto. - Seria aqui o jardim do Eden? Não teria sido a serpente que te induziu a saborear este fruto? Sei que tu estavas livre para o amor. Tens um filho, eu sei. E tu desejavas uma filha. Eis me aqui realizando o teu desejo. Mãe, tu fostes egoísta. Deixou-me ao desapego a mercê do destino. Tu fostes embora em nome do outro amor, esqueceste-me para sempre. Enviavas o dinheiro suficiente para o meu sustento e educação e a criação, deixou-me nas mãos de meu pai e dos Riveiros. Por que tu não me levastes junto ao teu filho e ao teu novo amor? Por que tu me escondestes? - Porque uma fatalidade nos atingiu como uma tempestade sobre nós quando tu eras pequenina. Perdí a noção do tempo. Sofremos a segunda fatalidade, há alguns anos, uma agonia. Um acidente de carro. Um homem de nome Cristo devolveu vida de teu irmão, mas demonio ceifou-lhe a voz, mas dei-lhe todas as minhas forças para que ele vivesse. Estou sempre a espreita, minha filha, presente em todos os teus momentos e nunca esquecerei de ti. - Sofri também com a fatalidade caso tu não saibas, minha mãe. Também, um doutor Cristo me fez a cirurgia divina. Ele expulsou a morte e me devolveu a vida. Seria o mesmo homem? Seria ele um ser divino? Por isso, minha mãe, tentei ser justa em todos os meus momentos da vida, tentei ser humana, mas o fascínio do certo às vezes induzem-nos ao erros mais profundos. E errei sem saber a razão do meu erro. Sem querer, quebrei os paradigmas da sociedade, cometi improbidades em nome do amor. Queres saber? Canibalismo. JÔ, o meu eterno companheiro, o anjo que surgiu em meu caminho, saboreou a carne do corpo morto de meu pai. Segui o teu ato e devorei-o por acreditar que se tivesse tua carne dentro do meu corpo, ele poderia sobreviver. - Era depressão no seu último grau, minha filha. Tu exagerastes. Tudo tem limite. Qual ser humano cometeria um ato tão insano? A antropofagia tinha um significado? Ou tu estavas simplesmente a um degrau do inferno? Tu perdestes o bom senso? Eu sei, tu mergulhastes no teu mundo e não conseguistes emergir à realidade. E eu, minha filha, e eu estava longe sem poder te socorrê-la. - Era apenas um momento. Estava abaixo do inferno e longe de Deus. Senti as labaredas queimarem a minha alma. O meu limite de consciência estava nula. Apavorei-me com a solidão. Era um momento de desespero. Doutor Cristo me salvou, como sempre. Tu me dissestes um dia que um doutor com o mesmo nome de Jesus salvou teu filho. Seria este mesmo doutor? - Doutor Cristo. Salvou o meu filho com células-tronco e CHIPS implantado na cabeça. - Como conhecestes este homem? - Pelo pai de Tadeu. - Também fui salva com implantes e células embrionárias. Foi um trabalho de reconstituição total da vida. Podes me dizer o nome do teu filho? Herbin.

Fico surpreso pelo meu nome estar neste diário. Lisa seria a minha irmã? Coincidência plausível. Vera, a minha querida mãe era cantora lírica. Já estive em todas as cidades desta região acompanhando-a em seus "shows" até aquele fatídico acidente de carro. E o meu nome é Herbin. O peito começa a me apertar. Quem seria essa garota tão louca, heroína, boa, má, antropofágica e mística? Como ela sabia a respeito da mãe? Ah! O pai certamente contou tudo. Perco a vontade de ler. Fecho o diário. Doutor Cristo? Estaria eu carregando um implante no meu corpo? Não seria uma invasão grotesca e brutal no ser humano? Seria eu um Frankestein? E a minha alma? Ele teria a reinventado? Até onde iria o poder deste CHIPS? Quais seriam as consequências futuras? Tadeu, Lisa, eu. E Marcelina? Mais quem? Vera, a minha mãe? Quem mais? Pego o micro e digito.

Tadeu está de pé numa sala do hospital. Ele caminha normalmente. Convido-o a me acompanhar até o jardim. Ele me responde. - "Sim, Lisa pode sim, ser sua meia irmã. Nunca vi a mãe nessas redondezas, mas houve boatos de que ela havia adquirido o terreno e construído uma casa e o pai a levava para visitá-la em outra cidade. Depois que ela conheceu Leccon, houve uma ausência considerável porque os boatos cessaram na cidade. Creio que você deveria ter os seus 7 anos". Fico calmo, mas indignado por essa revelação. - " Como você sabe dessa história?" - "Herbin, quem reside no interior, tudo se sabe. É como se fosse uma família". - " Entendo, mas por essa não esperava. Os tempos de hoje tendem a seguir essa trajetória, milionários, pobres, mães solteiras, pais órfãos e filhos adotivos ou desamparados, células-tronco, embrionárias, implantes de CHIPS. Minha irmã Lisa! É uma pena não tê-la conhecido". Dou uma pausa. Canso-me das gesticulações afoitas da minha parte. De repente, lembro-me da capela do J.J. e pergunto com sinais rápidos. - "A respeito de J.J., você viu uma cena pela fresta da janela, não foi? Eu vi também. O que você viu?" Ele olha para os lados com olhares titubeantes e decididamente aproxima a sua boca no meu ouvido e sussurra. Ajeito o aparelho para ouvir melhor. - "Não foi a mesma coisa que você viu, Herbin". - "Então você viu com os outros olhos. Não foi um sonho? Uma invasão de imagens geradas do implante?" - "Herbin, veja bem, se fosse em consequência do CHIPS, já teria visto muitas coisas antes. Por que pela fresta da janela de uma capela? Ainda mais de um inimigo? Se o seu implante é do doutor Cristo, por que veríamos imagens diferentes?" Fico calado e penso e respondo sem nenhuma certeza. - "Talvez o CHIPS tenha se adaptado ao cérebro de cada um. Somos diferentes. A minha visão de felicidade ou tragédia pode não ser a mesma que a sua". Tadeu olha para os galhos das árvores como se estivesse procurando uma visão. - "Não, Herbin, a felicidade é a mesma em todos os seres humanos." Fixo os meus olhos para o céu procurando palavras e digo aleatoriamente. - " A felicidade existe no momento em que não sentimos o que é a felicidade. Quando sofremos é que notamos que a felicidade existiu. Há em seres humanos em que a sua felicidade é assassinar o semelhante para se sentir um homem feliz. Quero dizer, um animal. Sim, a felicidade é diferente para cada ser humano. Um exemplo. As pessoas sentem às vêzes, necessidade enorme de saborear um caqui e quando se satisfazem, é esse o momento da felicidade. No meu caso, quando sinto ansiedade, me vem uma dor de cabeça, tonteira, barulhos de cigarras cantando, bater de asas, versos, música." - " E o que você vê?" Tento me lembrar sem incluir desejos paladares. - " Vejo minha mãe, Vera. Vejo um cavalo, vejo flores, vejo meu padrasto Leccon, vejo vultos". Tadeu me olha e demora para responder. -"Também tenho esses sintomas. É por isso que estou aqui. Mas não tinha implante. O fato de você ter visões, é quando você se encontra em estado de extrema infelicidade e deseja ansiosamente eliminá-la. É óbvio que há elementos químicos desconhecidos no cérebro que são produzidos e liberados de acordo com a emoção da pessoa, o que pode influenciar no seu comportamento." De um momento para outro, a conversa se reduz. Há uma pausa como se tívessemos procurando um assunto e pergunto. - "E a Marcelina? Alguma notícia dela?" E para minha surpresa e para a dele, também me pergunta. - "Como você sabe da Marcelina? Você nem a conhece!" Fico atônito. Para disfarçar, faço sinais estranhos para ganhar tempo e de repente a resposta. - "Sem querer, lá no hotel, vi na tela do computador, a sua imagem e a dela. O atendente me fez o favor de mostrar. Eu li o nome". - "Bem, Marcelina está muito bem com a vida. Estamos apenas juntos e nós nos damos muito bem. Ela é uma ótima pessoa. Semana que vem estaremos juntos novamente". 

O FUNERAL DE UM ILUSTRE CIDADÃO

"No dia seguinte, no bar, assisto às notícias do assassinato do ex-prefeito cometido pelo ex-delegado e ex-amigo Vanderson. Estranho o fato de J.J. estar entre as vítimas, assim como nas primeiras páginas de jornal. O mistério estava formado. As investigações apontavam para um misterioso homem que filmou, conivente com o crime e a arma de numeração raspada encontrada no jazigo. Era eu, mas a arma estava em poder de J.J.

Tomo o meu café da manhã e a seguir, abro o micro, digito.

Visito Tadeu e Katinha no hospital, já em boas condições de recuperação. Com sinais e gestos, pergunto-lhe. - "Tadeu, a quem devo entregar o celular? As imagens de dentro do jazigo estão escuras e o J.J. não aparece em nenhum momento." Tadeu respira fundo e vira os olhos para o teto como se estivesse pensando em alguma solução. - "Não sei. Talvez para o novo delegado." - "Posso mesmo?" -"Pode. Ou melhor, para o promotor Lopes, é o mais confiável. Ele me fez uma visita. Saiu ileso graças ao colete à prova de balas. O importante é que a turma da pesada se extingüiu. Agora, só resta evitar a proliferação de corruptos. Teremos paz por um bom tempo. E a Katinha, como ela está?" Sorrio e ele me entende, mas respondo. - "Está se recuperando do choque com acompanhamento de uma especialista. A sua mãe está está fazendo companhia e o seu pai já foi para a usina com o motorista particular." - "Eu sei. Ele passou por aqui." 

À tarde, uma multidão acompanha o funeral de J.J. com o caixão encoberto por uma bandeira do município, num caminhão de corpo de bombeiros. Ele sai do hospital para ser velado em sua capela particular e depois, cremado. A mídia em geral procura os políticos para as entrevistas e a mais requisitada era a ex-esposa e depois os dois filhos que também trilhavam no ramo da política, vindos de São Paulo. O caminho agora estava aberto. Nos jornais locais, o J.J. era o destaque nas manchetes: "J.J. assassinado covardemente!" - "Evilate perde J.J." - "J.J. deixa saudade." - "A polícia procura um desconhecido na morte de J.J. e no rodapé: A imagens do criminoso foram filmadas de dentro do jazigo. As duas vítimas sobreviventes serão interrogadas." - " O outro jornal, da oposição: "Morre o ex-prefeito de Evilate, J.J., o corrupto." Nas entrevistas, a esposa, de óculos escuros procurava enaltecer o ex-marido. Os dois filhos já procuravam fazer política com suas habilidades na fala com possibilidades de se fixarem na cidade. A fila de carros era enorme. No hospital, Tadeu, diante da TV se estressava a cada momento em que o defunto J.J. era ovacionado pelo povo.

Resolvo participar, pego o carro e entro na enorme fila do enterro, justo atrás de dois carros de polícia. A viagem é longa a ponto de ver o sol se pôr mostrando belas imagens do entardecer em contraste com o funeral do ilustre cidadão. Após atravessar os canaviais, entram numa estrada vicinal onde se dá direto à propriedade de J.J., identificado por um majestoso portal imitando arco-íris. Sob os olhos atentos dos vigias, o trânsito flui normalmente e os carros desviam de uma luxuosa mansão à esquerda numa rua de terra. Após dois quilômetros, se dá para outro portal imitando pilares gregos e logo à frente, uma pequena igreja com cúpula arredondada. Os acompanhantes estacionam os carros no meio das árvores. Desço do carro com olhar atento ao santuário, lembra-me do Vaticano. Enfrento a fila para entrar na capela e a metade das pessoas não conseguem se acomodar deixando muita gente de fora, mas reconheço o promotor Lopes em companhia do delegado. Sem que ele perceba, aproveitando a aglomeração, deposito o aparelho no bolso direito do paletó e sigo em frente disfarçadamente. Impressiono-me com a tamanha semelhança com a capela onde Tadeu estivera em cativeiro. No lado direito, dirijo-me à estátua do anjo, analiso, passo as mãos e chego à conclusão de que a ponta da asa esquerda fôra colada cuidadosamente. A capela está bem conservada e percebe-se o indício de cheiro de tinta, evidentemente, recém reformada . Verifico também as outras imagens de santos, mas sem muito a acrescentar. Enquanto a missa se desenrola, direciono-me até a outra extremidade, perto do altar onde há uma porta aberta que vai para os fundos. Espio. É um cômodo grande que serve de cozinha, com mesa, cadeiras e pia, exatamente como vira nas cenas onde Tadeu estivera amarrado.

O padre, em frente à esquife, em discurso solene, fala sobre os feitos do finado. Permaneço no lugar tentando ajeitar o aparelho de surdez para ouvir atentamente as palavras de fé, quando, subitamente, a energia cai deixando a capela numa completa escuridão, uma bomba de festas juninas explode. Dá-se então, início de gritos desesperados dos presentes. O padre suplica calma para que a turba não entre em pânico. O delegado e o promotor tentam apaziguar os ânimos, mas o pânico estava deflagrado. Muitas pessoas se assustam com esbarrões nas pernas e saem em retirada. Seriam animais selvagens invadindo a capela? Cães? Gatos? Algumas pessoas caem e são pisoteadas. Os policiais do lado de fora, pegos de surpresa, também não conseguem dominar e tentam ao menos socorrer as pessoas caídas. Encosto-me na parede, e fico atento às movimentações. Enfim, consigo identificar! Devido a uma fresta na janela e aos reflexos da luz do luar, consigo identificar ao menos, alguns rostos, e por incrível que pareça, eram os Riveiros! Eles estão em todos os cantos do recinto, até pendurados em cordas balançando de um lugar a outro dando-se a impressão de estarem se exibindo num espetáculo circense. Ouço repetidamente, batidas na madeira e objetos de encontro ao chão. De repente, o silêncio.

A enegia retorna. As pessoas fora da igreja voltam para completar a cerimônia. O padre, assustado, mas contido, solicita gentilmente a volta dos fiéis, mas muitos desistem e dirigem-se aos seus carros e se vão. A capela está totalmente em ruínas. A mesa do altar estava virada, cálices no chão e flores despedaçadas,  corpo do J.J.  irreconhecível, caído no chão com sua cabeça decapitada e os olhos furados. O padre, desolado com o tamanho sacrilégio, pede aos presentes que se ajoelhem e façam as suas próprias orações solicitando perdão aos descrentes e aos vândalos. Todos repetem o gesto do sacerdote enquanto os policiais iniciam a busca e um policial grita: - "Alguém viu alguma coisa?" Sei, mas não me manifesto. Terminada a oração, padre pede ajuda para recompor o corpo dentro do caixão, em péssimo estado. Faz apressadamente o sinal da cruz, abençoa e ordena o início da cremação. No mesmo local, o caixão desce automaticamente por um mini-elevador, adaptado para essas ocasiões e as pessoas descem por uma escada ao lado. O subsolo é amplo e é constituido de diversos equipamentos como mesa, uma máquina trituradora, armários, forno e um computador numa mesa isolada. Lembro-me das cenas nos quais Tadeu havia passado. Era exatamente igual. Sem sermões, o padre faz sinal da cruz e dá a permissão para o início da operação. Um homem opera um "note book", digita e entra no arquivo do crematório e dá o "enter". O caixão se dirige à fornalha através dos trilhos, as portas se abrem. Anoto no meu bloco de notas para que se faça uma investigação detalhada do ambiente e notadamente no triturador. Num momento oportuno, no meio de poucas pessoas que desceram até o crematório, entre eles, o novo delegado, consigo enfiar o recado no bolso do seu paletó. Sem querer, esbarro-me com o promotor e me desculpo.  

A urna de cinzas do J.J. está exposta ao altar. O padre abençoa a urna com água benta e dá por encerrada a cerimonia, quando de repente, as luzes se apagam novamente. O padre, sem perda de tempo, pede aos presentes que fiquem em silêncio e parados. Ouvem-se passos rápidos, aproximadamente de duas ou três pessoas e a seguir, desaparecem. As luzes se acendem. Todos ficam aliviados e também estupefatos quando notam o sumiço da urna de J.J. O delegado aciona os seus homens via rádio e pede "blitz" em estradas, ruas e avenidas.

Após horas, a investigação é feita com o recolhimento de impressões digitais, panos, pingos de sangue, rastros de terra e o crematório fotografado em mínimos detalhes, principalmente o triturador com ordens do delegado. Despreendo-me da turma de curiosos e me direciono ao meu carro. Terminada a investigação, os policiais se recolhem ficando apenas dois carros de patrulha.

O céu crivado de estrelas dá um contorno dourado à cúpula. No silêncio da noite, driblo os policiais dorminhocos, me dirijo até a janela onde Tadeu espiara através da fresta. Apoio-me com as duas mãos na parede e espio.  O silêncio é total. Aos poucos, indício de vozes, passos, gritos, revoada de pássaros ou seriam morcgos? Arregalo os meus olhos, assusto-me ao ver movimentos nas sombras, pisco várias vezes para sentir de que não estou sonhando. Tiro os olhos da fresta e corro rapidamente em direção ao meu carro com a impressão de ter visto algo incomum que não sei descrever.

 

O FUNERAL DE UM ILUSTRE CIDADÃO

"No carro, religo o celular, conecto na visão de J.J. e vejo Vanderson alterado, gritando e arremessando a urna mortuária de Lisa, espalhando as cinzas pelo ar. Tadeu protesta contra a tamanha irrespeitabilidade, ele se enfurece apontando-lhe a arma. De súbito, um ruído interrompe as imagens, mas alguns segundos depois retorna mas com aúdio avariado. Chacoalho o celular. Paro o carro para tentar todas as possibilidades de operação para recuperar o som. Lembro-me de um detalhe. Retiro o cartão de visita que Tadeu me havia dado no hotel e anoto o endereço do promotor na agenda e envio um "torpedo": "Confusão no cemitério. Urgente! Tadeu e Katinha em perigo! Não é trote."  Movimento o carro novamente e ao mesmo tempo de olho na tela com o aparelho encostado no para-brisa. Na estrada, lembro-me de algo e estaciono o carro no acostamento. Reinicio uma série de operações para transmitir as imagens. Lopes, ainda no local da explosão, conversa com o recém chegado, o delegado Fortes, alto, magro, quase calvo com um cigarro entre os dedos e um boné italiano na outra mão. - "Como pode acontecer uma tragédia dessa numa cidade tão pacata, Lopes? - "São novos tempos. Gente demais defendendo seus próprios interesses, delegado." - "Na cidade onde eu estava, só houve uma discussão conjugal. Deixei os dois na mesma cela e hoje estão unidos novamente. Estou notando que a minha transferência para cá foi um tremendo dum "abacaxi. A propósito, devo lhe avisar que dispensei os anões que não queriam sair da cadeia. Eu compreendo a situação, mas o estado não pode sustentá-los por mais tempo. Cadeia não é hotel. Eles falaram do temor que sentem do Vanderson e J.J. Eles voltaram para casa". - "Tem razão, delegado. Há uma discussão sobre a legitimidade das terras onde eles moram". Lopes atende ao celular e se surpreende com as imagens na tela. - "Veja, delegado, Vanderson está com problemas no cemitério. Pensei que o "torpedo" fosse um trote." Delegado Fortes assiste e estranha a movimentação. - "No cemitério? Mas o que será que está havendo? Prendendo alguém? Ele perdeu a função de policial por um tempo. Parece que Vanderson está alterado. E quem será que está filmando? Vamos lá com mais cinco homens!"

Vanderson, demonstra um brusco tom de voz e parece ordenar que os dois quebrem outra gaveta do jazigo e sob protestos, Tadeu e Katinha iniciam as marretadas. O promotor bate com o dedo no celular, quase mudo, para que as vozes se evidenciem, sem sucesso. - "Veja, delegado, há pessoas no jazigo. Não é possível identificá-las. Está muito escuro e alguém está filmando!". O delegado, urgentemente convoca um sargento da PM para auxiliar na operação. Dois carros com sete políciais saem em disparada em direção ao local.

Mantenho o carro em alta velocidade e ao mesmo tempo, acompanho as imagens. No cemitério, os policiais vistoriam atentamente. Num rápido olhar, J.J. vê a movimentação policial nos arredores em posições de busca avançando em várias direções. De repente, ele entra para dentro do jazigo, deixando Vanderson de fora e aponta a arma na cabeça de Katinha, esbravejando. Em questões de segundos, com o impacto da cena, vejo o escurecimento na tela e levanto a cabeça para o céu comprimindo os meus olhos devido a luz do sol. Sinto uma leve dor de cabeça. Estaciono o carro no acostamento. O ar parece se mover e se materializar e assisto à uma chuva de microfios prateados pairando no ar. Uma sombra escurece o meu rosto e ouço rebatidas de asas de uma ave. Fico momentâneamente em transe. A minha visão se torna fosca e depois, em instantes, retorno-me à normalidade, assim como as imagens. Penso alto. - "Creio que J.J. esteja obrigando a Katinha a falar o paradeiro do celular." A garota, com rosto tapado com as duas mãos, chora, J.J., impaciente, aplica-lhe dois tapas seguidos e girando rapidamente, acerta uma coronhada na cabeça de Tadeu antes da sua reação projetando-o para parede. Vanderson, sem entender o ato repentino do ex-prefeito de ter entrado no jazigo interroga. - "J.J.! O que é isso? O senhor endoidou? Por quê entrou aí tão de repente? Encontrou o celular?" Tadeu conforta a irmã abraçando-a e dialoga veementemente com J.J. que por sua vez, vira-se para Vanderson que espera a resposta. - "Polícia! Olhe para os lados!" Perto do velório, vê-se a movimentação dos policiais avançando para o centro. Lopes, novamente bate os dedos no celular para que a voz aumente. Vanderson, ao ver o avanço dos policiais, sente desmoronar o seu plano. - "E o senhor não me avisa?" Imediatamente, sem temor na consciência, com expressão satânica e decisiva, aperta o gatilho atingindo o ombro de Tadeu. Ele cai e se levanta. J.J., por sua vez, com a arma apontada para a menina, de cima para baixo na tela. Fico enervado com a situação da garota. Que raio de ser humano ele é? É um homem formado, político influente criando situações de terror numa inocente garota? O que leva um homem a um patamar tão ínfimo? Frustração? Fracasso? Era um caso a estudar. Sem perda de tempo, resolvo iniciar várias operações no celular, e me lembro das lições que DONI deu para Tadeu. Digito as letras JJ e aperto o "ENTER".  Seria isso mesmo? Tenho uma memória invejável. O meu rosto respinga de suor. Não funciona. Talvez sejam os pontos finais em cada letra e apresso-me em corrigir para J.J. e depois, peremptoriamente, aperto o ENTER. Enfim o resultado. A arma do ex-prefeito cai e o monitor do celular se apaga. Sorrio com satisfação e beijo o aparelho pelo sucesso. J.J. não existe mais. Kainha está salva.

Ao ver a tela se apagar, o delegado dá ao sargento, o sinal de avanço ao centro. Alguns policiais, ouvem disparos. Vanderson, atira a esmo para dentro do jazigo. Tadeu se aproveita do corpo inclinado do J.J. que serve de escudo. O ex-prefeito fica crivado de balas. O delegado Fortes, avista o local da confusão e identifica o ex-delegado na tentativa de fuga e grita com a sua voz potente. - " Vanderson, pare! Sou eu, o Fortes! Lembra-se de mim? O que você está fazendo?" Vanderson pega outra arma do blusão e se vira. - "Fortes? O que faz você aqui?" - "Sou novo delegado substituto. Eu que pergunto, o que você está fazendo aqui?" O promotor, declara. - "Você está cercado! Largue essa arma!" Logo, Fortes, com calma, retruca. - "Lopes, deixe-me falar. Dois cozinheiros numa cozinha, a comida salga. Eu o conheço. Ele é explosivo. Se falar com rispidez, ele perde a cabeça." - "Fortes, não vou me entregar. Está tudo perdido para mim! Já disparei muitos tiros aqui. Só vou me render morto!" - "Vanderson, espere! Não estou entendendo o que se passa aqui. Você cometeu algum crime?" - "Cometí e não há mais nada a fazer! Não vou me render!" Lopes, sem paciência, solta a frase. - "Vai sim, Vanderson, você tem que ir para cadeia! Levante as mãos!" Um tiro repentino no tórax derruba o promotor e a seguir, vários disparos passam rente ao delegado que se deita. Todos se protegem atrás das lápides. Fortes tenta conter a violência, mas o sargento e seus homens, automaticamente reagem com uma saraivada de balas. 

Fortes examina o ex-delegado, caído e inerte, sangrando pela boca e tiros na cabeça. Dirige os seus olhos para dentro do jazigo, se espanta ao ver J.J. caído e Tadeu ofegante pedindo socorro e Katinha desmaiada. Fortes pede ao sargento, socorro imediato aos feridos e a chamada imediata dos peritos. "Nossa, deu louca no Vanderson, matou o prefeito! Cadê o cara que filmou? Ele é uma testemunha importante!"

 

 

O FUNERAL DE UM ILUSTRE CIDADÃO

"Estaciono o carro em frente à entrada do Vale. É uma construção de alvenaria em forma de cubo sem telhado e janelas de vidros escuros. Da portaria, surge um vigia uniformizado. - "É o senhor Herbin?" Respondo meneando a cabeça e surpreendentemente, o homem era um velho conhecido da história e saio para cumprimentá-lo. Dou-lhe um sorriso leve, faço gestos de capoeira e escrevo no chão com uma vareta: "Mestre Paixão." O vigia sorri e me cumprimenta. - "Você me conhece, mas não me lembro de você". Penso por uns segundos e gesticulo informando que já havia assistido alguns shows seus de capoeira. Paixão abre sorriso de satisfação, dirige-se até a porteira e indica o local do estacionamento. Mais adiante, leva-me à pé até a cocheira que abriga cinco cavalos, perto das árvores. - "Estou instruído para serví-lo. O doutor Jorge me explicou tudo. Daqui para frente, o senhor terá de ir à cavalo. É proibido o tráfego de veículos nessa área de preservação. Se quiser, apresse-se, há um guia com algumas pessoas." Concordo balançando a cabeça afirmativamente. Paixão entrega-me um "bipe". - "No caso de se perder é só apertar o botão. Siga esse atalho, é onde a Lisa costumava ir. Está vendo aquela encosta? Há uma casa de pedra muito interessante. Cavocaram uma rocha por dentro e na entrada, uma porta redonda também de pedra. Para abrir e fechar, é só rodar. Vale a pena ver. Ninguém sabe do autor. É um mistério." Agradeço-lhe pela gentileza e bom atendimento. Não sei porque razão, escolho o cavalo branco.

O caminho é íngreme, com vegetação densa, vejo alguns macacos pregos fazendo malabarismos nos galhos,  pássaros como pica-pau, tucano e até cobra verde cruzando o seu caminho. Por sorte, o cavalo apenas pára, parece estar acostumado com os bichos. Na encosta, uma casa. Amarro as rédeas do cavalo debaixo de uma árvore e faço o trajeto a pé por causa do chão rochoso. Observo o lugar atentamente. Aproximo-me da casa, ao lado esquerdo, um esboço de uma pequena escultura inacabada em rochas com contornos humanos com pouca definição. Empurro a porta de modo que ela rode e entro. O interior é medieval. Não há nada além de alguns furos para a entrada da luz do sol, uma mesa retangular e assentos em volta, tudo de pedra. Uma atração misteriosa para os turistas. Quantos anos levaram para cavocar essa rocha? E esses furos? Como conseguiram? Quem seriam?"

Após vaculhar o local, sigo as pessoas, uma criança, uma mulher e um homem, provavelmente visitantes. Entram num atalho que dá num pequeno desfiladeiro em frente à uma gruta. Os visitantes seguem direto, mas eu entro. Parece ser um museu e está escuro. No canto, uma mesa com livro de visitas e assino. Aperto interruptor na parede e luzes acendem em toda a sua extensão. Há várias esculturas de pessoas, animais e pássaros nos cantos da gruta. Uma estátua familiar chama a minha atenção. Um urubu gigante, branco com um penacho na cabeça quase pelada. Parece ser JÔ. Na sua base de pedra em forma de placa, quase imperceptível, há uma escrita. Remove pó com as mãos: "Caminhe nessas escuras ruas de pedras mortas onde a cruz desta pequena cova queima a luz do meu silêncio." Observo a estátua minuciosamente. Descubro um pequena e imperceptível rachadura nas costas da ave. Olho para os lados para verificar se há turistas nos arredores e retiro com cuidado, a parte rachada. Dentro, encontro um par de prótese das pernas de Lisa e junto, um bilhete, um diário, um celular e o esqueleto de uma ave, provavelmente de JÔ. No bilhete: "JÔ, descanse em paz. DONI".

No cemitério, Tadeu e Katinha está dentro do jazigo tentando quebrar a gaveta de Lisa. Tadeu reclama. - "Vocês pensaram em tudo. Trouxeram até marreta!" Vanderson ri e a voz J.J. responde com tom de repreensão. - "Pare de falar e arrebente essa tumba logo!" Tadeu, suado, vê as primeiras lascas de concreto caírem e toma fôlego para quebrar de vez. Vê-se esqueleto de um homem, provavelmente do pai e ao lado, uma urna transparente com o nome de Lisa e um bilhete: "Descanse em paz, Lisa. DONI".  Katinha lê e chora. Tadeu se impõe e fica rijo, engole seco, respira fundo e dirige os olhos para verificar os cantos com um farolete que Vanderson havia disponibilizado. - "Não há nenhum celular aqui!"

Desligo o celular nas últimas imagens de Tadeu. Recoloco a parte rachada e sai apressado do museu. Ao chegar até a árvore, sinto aquela manifestação repentina de dor na cabeça, um FLASHE, uma tonteira, e em imagens rápidas e nebulosas, vejo uma mulher de preto, Lisa montada no cavalo e o JÔ. E era a imagem da minha mãe. O que seria? Fantasmas? Não, não acredito nisso. 

O FUNERAL DE UM ILUSTRE CIDADÃO

- "Está bem, Will. Serei um interferente".

Imediatamente, faço as malas e tomo rumo à estrada com o meu automóvel. É madrugada, trânsito livre e acelero até o seu limite de comando da máquina. Pago alguns pedágios e passo pela cidade de Lemópolis. Já é manhã, o sol está encoberto pelas nuvens e numa questão de minutos, vejo diante da placa quase ilegível com letras góticas: EVILATE. 

Na cidade a movimentação ainda é fraca. Estaciono o carro e procuro um bar para o meu café da manhã. Sento-me perto da janela onde posso ver o movimento. Peço misto quente, um pingado e uma salada de frutas apontando o meu dedo para o menú. O garçom logo me entende que se trata de que sou um mudo e que utilizo aparelho de surdez. Abro o meu micro portátil e entro novamente na história onde William não havia conseguido seguir adiante. Recuo no tempo. A medida que digito e acabo uma cena, vou apertando a tecla "screen point one". Surgem figuras, paisagens e principalmente a cidade de EVILATE. Nos quadros, há figuras de personagens da história e me surpreendo com o último quadro neste próprio bar e aperto a tecla "movie one" para iniciar a movimentação. 

O carro de Marcelina sai da cidade e dirige-se para a estrada. Levanto-me, saio do bar e espio. Tadeu acena e depois se recolhe para o seu quarto de hotel. Deita-se e com pensamentos centrados sobre o implante do CHIPS, deixa rolar um pingo de lágrima e cochila. De repente, acorda com a sensação de alguém ter batido três vêzes na porta. Levanta-se descabelado e de cara amassada, atende e me vê, uma pessoa familiar fazendo gestos com linguagem de sinais. - "Bom dia Tadeu! Como vai?" - "Você é o Herbin, meu primo! O que faz por aqui?" Estendo a mão para cumprimentá-lo. - "Entre, primo! Que surpresa! Estava cochilando." - "Um cochilo de emergência? É manhã ainda"; disse-lhe. - "É. De repente senti um sono, um cansaço fora do comum". Tadeu senta-se na cama e eu na única poltrona do quarto. - "Então, primo, como você me descobriu?" Titubeio ao responder e falsifico a informação através dos sinais. - "Foi muita coincidência. Vi o seu nome no monitor do atendente e arrisquei. Estou hospedado no quarto ao lado, número 34." - "O que traz você até aqui?" Gesticulo com vagar procurando no ar, um argumento convincente. - "Digamos que estou em repouso e gostaria muito de visitar o Vale dos Pássaros. O seu pai poderia me conceder essa licença?" Tadeu com ar de desconfiança responde. - "Você pensou muito para explicar. É isso mesmo que você quer? Por quê?" Devido a dificuldade de me expressar mentira com sinais, resolvo informar a verdade. - "Tadeu, não estou aqui à toa. É uma longa história e depois você vai ficar sabendo. Você procura um celular muito especial e você imagina que esteja escondido no cemitério, no jazigo da Lisa. Pois bem, pode ser, mas eu creio que este celular está no Vale". Tadeu se surpreende. - "Como você sabe disso? Você é amigo do DONI?" Eu balanço a cabeça afirmativamente e tiro um papel do bolso com frase escrita e entrego ao primo, que lê em voz baixa. - "Caminhe nestas escuras ruas de pedras mortas, onde a cruz desta pequena cova queima a luz do meu silêncio. É a frase que DONI me deu." Sem perda de tempo, gesticulo que é a senha onde o celular está escondido e prossigo a comunicação com um pedido. - "Você pemite encontrar o aparelho? Você vai num lugar e vou no outro para ganharmos tempo." Tadeu fica indeciso e tenta entender o por quê desse interesse. - "Primo, pode me explicar a razão de querer me ajudar? Sempre estivemos distanciados por um bom tempo e de repente, como do que vem do nada para me auxiliar." - "Poderia explicar depois? Você pode confiar em mim! Aonde você iria primeiro através dessa frase?"; perguntei. - "Como você disse, no cemitério." - "Pois eu iria até o vale, onde Lisa fazia o seu retiro, digamos, espiritual. Ela se preocupava muito com o meio ambiente e lá é um verdadeiro exemplo de preservação dos animais em extinção." - "Sim, o meu pai deixava ela à vontade. Mas essa frase é dela? O que o DONI tem a ver com ela? Por que iria para o Vale?" Tento explicar-lhe com sinais, a sua interpretação da frase. - "Preste atenção, na frase está escrito: pedras mortas. Pois bem, o cemitério é calçado com cimento. Pedras mortas quer dizer que é um lugar desabitado, são chãos de pedras. Tem chãos de pedras?" - "Tem. Mas e a cova? Lisa está enterrada no cemitério." - "Está, mas não custa nada fazer uma sondagem no Vale. Ela ia ao vale com DONI para visitar JÔ, e por isso, o garoto teve a idéia de esconder o celular em algum lugar secreto. Talvez os principais pertences de Lisa estejam guardados lá, principalmente diários, versos, cartas." - "Você conhecia JÔ, o urubu gigante de estimação de Lisa?" - "Sim. Não me pergunte mais nada, mas conhecia. Se você estiver de acordo, informe ao seu pai que conserva a área para permitir a minha entrada, enquanto você vai para o cemitério. Confie em mim. Sou seu primo. Ganhamos tempo com isso. O tempo é cego e não tem paciência, ele avança sem esperar ninguém"; tentei convencê-lo. - "Está bem, Herbin. Vou avisar ao meu pai e ele deixa avisado para o guarda." - "Obrigado. Você parece exausto. O que houve?" - " Estou desolado. Preciso falar com o doutor Cristo urgente. Ele implantou um CHIPS inadequado. Quero que ele troque por outro". - "Por quê?" - "Não desejo compartilhar a minha vida, o meu corpo, a minha cabeça com outra pessoa por nada. É difícil entender. Depois explico o resto." - "Está bem. Acho melhor você descansar. Você está bem abatido. É como você soubesse de uma doença incurável. Até logo. Qualquer coisa estou do lado e aqui está o meu cartão."  Tadeu pega o cartão de visita e vê que há número do celular. Tadeu vasculha a sua carteira e  encontra o cartão do promotor Lopes e aproveita para escrever no verso, o endereço, e-mail e o telefone. - "Os meu endereço está no verso desse cartão. Desculpe utilizar o cartão do promotor de justiça. Depois peço outro para ele." Despeço-me do primo. 

Tadeu deita-se e com pensamentos sobre o CHIPS, deixa sem querer, rolar um pingo de lágrima e cochila. Depois de um tempo, abre os olhos e fala consigo mesmo: - "O que estou fazendo aqui deitado? Não há tempo a perder!" Rapidamente, em ritmo de maratonista, dirige-se até a clínica e logo, depara-se com uma vítima, transferida do hospital municipal para a clínica do doutor, provavelmente para a cirurgia emergencial do traumatismo craniano e provavelmente por queimaduras no corpo por estar enrolada em tiras de pano branco feito uma múmia.

O FUNERAL DE UM ILUSTRE CIDADÃO

"A vítima enrolada no pano chega à clínica e está deitada sobre a maca onde é conduzida no setor de traumatologia. Cristo, analisa os batimentos cardíacos, doutora Silvia instala os eletrodos no corpo entre os vãos dos panos e DONI, na outra sala observa os gráficos do computador. - "DONI, está tudo OK? Podemos preparar o implante?" - "Podemos, doutor Cristo". Na tela, há o desenho do CHIPS a ser implantado e o mapa da cabeça e o ponto exato no cérebro. DONI observa novamente o batimento cardíaco e dá a permissão. Ao apertar o botão, a mão da múmia segura os braços da doutora, levanta-se rapidamente e aponta a arma para os três. - "Quietos, não se mexam e fiquem de bruços!" Os três, espantados com a surpresa, obedecem. - "Peguei vocês em flagrante! Está tudo gravado aqui!" A múmia mostra o gravador e liga. - "DONI, OK? Podemos preparar o implante?" - "Podemos, doutor Cristo." E desliga o gravador e completa. - "É suficiente para botar vocês na cadeia, seus canalhas!" De repente, outro cúmplice entra. - "Prefeito Jõnatas, já preparei tudo! É só apertar o ENTER que essa clínica irá pelos ares!" Doutor Cristo reconhece os dois. - "Jônatas? Delegado Vanderson?" A múmia dirige as palavras ao Vanderson e explode de raiva. - "Seu imbecil! Você falou o meu nome! Quantas vêzes lhe disse que não sou mais o prefeito?" - "Não se preocupe, prefeito! Ninguém vai sobreviver!" - "E se por sorte alguém sobreviver, doutor delegado?" Vanderson saca a sua pistola com silenciador e atira friamente na nuca dos três, que instantâneamente morrem. - "Seu idiota! O que você fez?" - "Nada! Eu só atirei. J.J., vamos sair pelos fundos. Deite-se na maca e iremos até a sala do doutor. Lá tem uma saída pelos fundos." Vanderson coloca a máscara e o boné do doutor e sai empurrando o carrinho.

Muitos carros da PF estacionam em frente à clínica para levar os três para novo depoimento, agora como suspeitos. Os policiais federais armam uma estratégia por prevenção. Três ficam fora e seis entram armados. Tadeu e o promotor se levantam e se dirigem até o local, quando de repente, uma enorme explosão destrói a clínica. A correria é geral. Muitos corpos dos policiais que chegaram até a entrada foram arremessados no ar. O pavor toma conta da cidade. Aos poucos, as pessoas começam a se aglutinar, as sirenes dos bombeiros começam a soar ao longe, as ambulâncias e mais carros de polícia começam a chegar e iniciam a organizar o local sob o comando de um capitão.

Tadeu está chocado e olha alucinado para o local da tragédia onde estivera há alguns minutos e que por um triz, escapara com vida. A fumaça preta cobre a cidade e forte cheiro de carne queimada. O promotor se retira e se aproxima dos policiais para acompanhá-los no trabalho. O tumulto é geral. Tadeu lembra-se de Katinha e dirige-se até a escola, onde os alunos já estão no pátio. As aulas já haviam sido suspensas devido à fumaça e forte cheiro de queimado. Tadeu avista a irmãzinha e acena. - "Vamos embora, Katinha. Está muito perigoso por aqui." Pegam o táxi e passam perto do local da tragédia e pela janela avistam Vanderson na esquina e Katinha estranha a postura. - "Tadeu, Vanderson está parando na frente do táxi!" - "Não, Katinha. Acho que ele está me procurando. Motorista, rápido!" - "Não há condições de correr. O trânsito está lento!" Vanderson chega e aponta a arma discretamente, envolvida dentro do blusão.  - "Abra a porta que vou entrar!" O motorista, apavorado, abre a porta do lado do passageiro para o ex-delegado e este, veementemente, ordena. - "Motorista, leve-nos para o cemitério." Katinha se espanta. - "Cemitério?" Vanderson fala secamente. - "Quero visitar o túmulo da Lisa. Quero orar".  Tadeu entende a ironia e o vilão prossegue a frase. - "Sabemos das frases da Lisa que DONI escolheu para esconder o celular. Os nossos "Hackers" são eficientes." Tadeu pergunta curioso. - "Que frase?" -  - "Esta." O ex-policial retira um bloco de notas e lê: - "Caminhe nestas escuras de cimento morto, onde a cruz desta cova, ilumina o meu silêncio." Tadeu se manifesta. - "A frase que tenho é diferente." Tadeu entrega o papel. - "Quer me enganar, sabichão? É quase igual. Ela diz que é aqui nesse cemitério. Essas frases são de Lisa?" Tadeu responde com expressão de dúvida. - "Não sei. Talvez seja do DONI e ele morreu." O bandido se arrepende de ter eliminado o garoto e aponta para um carro cinza. - "Vamos em direção àquele carro." Vanderson algema os dois pronunciando palavras robustas. - "Vamos, sem alarde, Katinha vai naquele carro cinza." Tadeu se alarma e protesta. - "Ei, deixe a menina aqui! Por quê isso?" - "No caso de alguém escapar, teremos um refém." Tadeu não se conforma e diz com nervosismo. - "Você está extrapolando. Veja a que ponto chegou! Perdeu a noção e está caindo para o crime de vez. Está indo pro ralo!" Vanderson aponta a arma para o rosto de Tadeu e com a ponta do cano, cutuca várias vêzes na testa até sangrar. Katinha transfere algemada no outro carro de vidro escuro no assento da frente e reconhece o motorista. -"Prefeito Jônatas?" - "Menina esperta!" O dois automóveis rumam para o cemitério.

  O jazigo é simples, no meio, o formato retangular e na cabeceira, uma estátua de um anjo e na sua parte inferior, dois vasos quadrados de concreto para a colocação de flores, e logo abaixo, uma porta de ferro para entrada do caixão para as gavetas. Sob as ordens dos dois, Tadeu e Katinha vaculham os dois vasos mas nada encontram. J.J. de repene ordena em voz alta. - "Arrombem a porta do jazigo!"

A tela do monitor de repente embranquece. Entro no mensageiro e escrevo: - "Will, a tela está em branco! Acabou a história?" William responde: -"Acabou. Não sei o que fazer. Houve mortes em exagero e pretendo não matar mais ninguém. Tadeu é muito humanitário, Katinha nem se fala. O Jorge está na cadeira de rodas. Wagner era a única pessoa que poderia dar fim aos dois." - "Will, posso dar continuidade à história?" - "Como lhe disse, vá em frente e faça uma coisa incomum, dá?" - "Para isso, gostaria de retardar o tempo." - "Herbin fique à vontade. O tempo é seu. É a estética do absurdo que vai entrar em ação?" - "Não, o ruído. Simulacro".

 

  

 

O FUNERAL DE UM ILUSTRE CIDADÃO

"Katinha, de uniforme escolar, toma café junto com a mãe. Tadeu, do outro lado da mesa, toma o seu último gole, ao mesmo tempo, Marcelina se levanta para levar algumas louças para a pia e pergunta. - "Katinha, as férias acabaram, né? Você quer uma carona até a escola?" A mãe, vendo a Katinha com boca cheia, responde por ela. - " Era o Wagner que a levava. A partir de hoje, eu farei essa função, Marcelina". - "Nós vamos embora hoje para São Paulo." - "Já? Assim tão de repente?" - " Tenho que me preparar, resolver muitas coisas pendentes, principalmente boletos bancários para pagar." - "Entendo. Katinha, quer carona?" - "Quero! O que vocês vão fazer na cidade?" Tadeu se levanta do assento e responde. - "Temos de fazer as malas para irmos embora." - "E as suas férias, Tadeu?" - "Vou iniciar um curso de efeitos especiais para cinema dentro de duas semanas." - "Mas você não é ator, Tadeu?" - "Katinha, sou, mas hoje em dia temos que saber muito mais do que simplesmente ser ator. Um ator de cinema, teatro e TV, tem que diversificar as atividades como dar aulas, escrever roteiros e quando necessitar, se embrenhar até nas produções de TV e cinema e outras coisas para sobrevivência. Conheço ator que tem até restaurante. No meu caso, estou fascinado pelos efeitos especiais". - "Quero ser igual a você, Tadeu. Você é o meu herói!" Tadeu retribui com um beijo na testa. A mãe interrompe, olha o relógio. - "Katinha, nada de herói e você não tem que ser igual ao Tadeu. Você tem que ser você. Você tem que seguir o exemplo dele. Sempre estudioso." - " Mas estou estudando, mãe!" - "É verdade. É melhor vocês irem. Está na hora. Depois tenho que ajudar Jorge no escritório para conferir as suas planilhas, você o conhece, Tadeu. Ele é teimoso. Deveria repousar mais até sair da cadeira de rodas. Há funcionários para essas tarefas. E à tarde, temos entrevistas com alguns candidatos para ocupar o lugar de Wagner." A mãe dirige o seu olhar para Tadeu e diz num tom cerimonioso. - "Tadeu, tem certeza que não quer ficar? Ajude o seu pai. Ele está precisando mais do que ninguém de um homem de confiança!" Tadeu dirige-se até a mãe e dá um abraço e diz nos ouvidos. - "Mãe, você sabe que tenho vontade de ficar, mas preciso concluir esse curso."  A mãe olha consternada para o filho. - "Espero que volte. Você não sabe a falta que você está fazendo. Agora, sem Wagner, não sei se seu pai conseguirá tomar frente aos negócios e comandar quase noventa empregados." - "Mãe, o senhor Jorge é firme na rédea. Tenho certeza! Mas se ele não agüentar, voltarei."

Após ter se despedido mãe e do pai, deixado Katinha na escola, o casal vê DONI caminhando apressado em direção à clínica. Marcelina buzina e o garoto atende. - "DONI, quer carona até a clínica?" Ele pára, olha para os lados e entra no carro na parte de trás. Tadeu sente uma pequena diferença em seu rosto e pergunta. - "DONI, tudo bem? Você está diferente. O que houve?" - "Nada. Um certo temor. Fui ameaçado de morte. E tenho uma notícia boa. Consegui, Tadeu! O celular, consertei. Poderemos vigiar o ex-prefeito e provar que ele é um criminoso. Vocês têm que ser cuidadosos, ele está articulando algo. Eu os vi na tela do celular, ele e o delegado Vanderson no restaurante. E tem outra, os "hackers" invadiram os nossos computadores. Receio que eles tenham descoberto o conteúdo do celular. Para a minha segurança e a de vocês, escondí o aparelho num local secreto. Pegue esse papel. Está escrito a senha." Tadeu guarda o papel no bolso e DONI olha para os lados. - "Marcelina, me deixe no hospital. Depois vou para a clínica. Temos um paciente com traumatismo craniano e preciso pegar um documento. Talvez tenha que transferí-lo para nosso setor." - "É claro, DONI." O rapaz desce e fica apoiado na janela do carro. - "Obrigado. E vocês, vão para onde?" - "Daqui a pouco voltaremos  para São Paulo." Tadeu completa as palavras da garota. - "As aulas de Marcelina vão começar." - " E você, vai?" - "Vou, DONI. Gostaria de ficar, mas tenho que ir. A PF, a Promotoria, PM estão trabalhando a todo o vapor. Os casos estão se resolvendo e não há mais nada a fazer." Marcelina interrompe preocupada. - "Tadeu, a sua família está ameaçada de morte, já pensou nisso? Não é melhor dar um tempo ainda? Pelo menos você." Tadeu pensa. - "Antes de ir, vou até a delegacia e pedir ao novo promotor que siga os passos do ex-prefeito e do ex-delegado." DONI sai e antes de seguir em frente, fala num tom irônico. - "Tadeu, aqui entre nós, vocês não acham que eles estão dando muita liberdade para esses dois criminosos? Todos sabem que são perigosos." Tadeu explica. - "DONI, na máquina chamada justiça, homens públicos tem recursos privilegiados e regalias extremas e somente serão presos se forem constatados crimes em flagrante, com provas concretas." DONI ri e exclama. - "Não há maior prova do que o nosso celular. Pena que as imagens do ex-prefeito estejam danificadas. Somente a imagem do J.J. teve interferência e uma pequena reverberação no áudio. É muita coincidência! Tenho absouta certeza que os "hackers" interferiram." - "Eles conseguem tudo DONI. O que você fez no celular para não ser rastreado?" - "Utilizo rapidamente e desligo. Então, boa viagem para vocês. Ah, mais uma coisa, não sei se devo dizer, Tadeu, posso?" Tadeu fica curioso e espera o rosto ansioso do garoto. - "O quê quer me dizer? Segredo?" - "Não, não é segredo, é uma informação médica. Já que estou sob ameaças de violência, devo-lhe dizer, Tadeu, caso você não saiba, o CHIPS do doutor Cristo está implantado em seu cérebro." Tadeu muda de humor e altera a  expressão no rosto. - "O quê? Mas como? Por quê você está me dizendo isso agora? Doutor não me disse nada a respeito! Quer dizer que posso ser doutor a qualquer instante? Não permitiria isso de maneira nenhuma! Vocês não tinham esse direito!" DONI abaixa a cabeça e fala em voz baixa. - "Desculpe, Tadeu. Era mais para salvar a sua vida. Só tínhamos esse CHIPS, não tivemos escolha. Devo avisar também que você poderá ter seqüelas, isto é, a sua feição irá se modificando ao longo do tempo. Fale com doutor, Tadeu. Até!" Tadeu fica inerte e pensativo. - "DONI, espere!" DONI desaparece. Marcelina, preocupada com o estado de choque, tenta acalmá-lo. - "Tadeu, ele foi transparente e até entregou a senha do celular." - "Ele não poderia me dizer sem pressa num local mais apropriado? Marcelina, não gostaria de maneira nenhuma ter duas identidades. Ele está ultrapassando os limites do bom senso e violando a privacidade do indivíduo. Sabia que é crime? Vou procurá-lo para uma conversa. Espero que ele repare os danos e retire o CHIPS."

No quarto de hotel, enquanto Marcelina arruma as malas, Tadeu lê a senha: "Caminhe nestas escuras ruas de pedras mortas, onde a cruz desta pequena cova queima a luz do meu silêncio". Tadeu chama Marcelina. - "Marcê, parece uma frase de Lisa." Marcelina pega o papel, lê, e pensativamente, com olhos saltados para o ar, arrisca a responder. - "Pedras mortas. Deve ser uma rua de um cemitério. Uma cova pequena. Poderia ser o túmulo da Lisa. A cruz que queima a luz do meu silêncio. Ela não está em paz. Ou foi que DONI escreveu? Será que ele está premeditando a sua própria morte?"  

Abaixo, na parte inferior da tela, surge o mensageiro MSN: " Herbin, como você está vendo essa história? - "Will! Até que enfim apareceu! Essa história não tem fim? - " Já está no final. Você poderia ajudar esse personagem. Tadeu está num beco sem saída. Que fim você daria nessa história? A sua morte? Um final feliz?" - "Não sei, Will. Será que tenho de interferir? Como se faz?" - "Faça uma loucura, um ato absurdo, coisa do outro mundo." - "Está bem, pensarei no que fazer. Você inventou a história e não sabe sair dessa?" - "Herbin, sem comentários. É emergência. Tchau!" - "Até!"   

Mais tarde, Tadeu, de olhar triste, acompanha o carro de Marcelina sair da cidade, acena e sobe para o quarto de hotel. Deita-se, e com pensamentos sobre o CHIPS, deixa pela primeira vez, rolar um pingo de lágrima e cochila. De repente, abre os olhos e fala consigo mesmo: - "O que estou fazendo aqui deitado? Não há tempo a perder! Rapidamente, em ritmo de maratonista, dirige-se até a clínica e depara-se com uma vítima, transferida do hospital para a clínica do doutor, provavelmente de traumatismo craniano e queimaduras por estar enrolado em tiras de pano branco parecendo uma múmia. A enfermeira o leva para um quarto. No corredor, vê-se um senhor empurrando um carrinho com equipamentos cirúrgicos e ao lado, doutor Cristo e doutora Silvia com máscara e luva especial. Tadeu acena. O doutor pede um tempo com gestos. Tadeu resolve sair para um bar onde estão alguns policiais e entre eles, o novo promotor, Everson Pontes. Tadeu pede um refrigerante e senta-se à mesa e se revolta quando vê TV anunciando a inocência do J.J. O promotor se aproxima e o cumprimenta. - "Sr. Tadeu, lembra-se de mim?" - "É claro que me lembro. Obrigado pelo socorro." - "É a nossa função. Vôcês não tem nada a agradecer. Nós trabalhamos para vocês que pagam impostos." - "Sente-se." - "Obrigado. Eu estou aqui para pedir-lhe uma informação. Vou ser direto. O delegado e o prefeito fizeram depoimentos e disseram que, é claro, não é uma acusação, apenas uma coleta de dados." - "Então, o que eles disseram?" - "É preciso investigar a fundo para não cometermos injustiça. Eles disseram o seguinte, que as verbas estouraram por causa de uma investigação longa, que requer a contratação de "hackers" e mais policiais. Há um bando aqui na cidade que está violando a privacidade dos cidadãos e o ex-prefeito acha que ele próprio é uma das vítimas dos implantes de CHIPS em alguma parte do corpo. É claro, os CHIPS não foram detectados em seu corpo. E o bando é formado, segundo eles, pelo doutor Cristo, doutora Silvia, o senhor Jorge, os anões, você e a sua namorada." Tadeu se espanta e a sua voz se enturba fazendo a sua respiração ofegante. - "O quê? Sou suspeito?" - "Vamos indiciar os doutores. Esse caso está sob a competência da PF. Não saia da cidade, senhor Tadeu. O senhor é um suspeito."  

O FUNERAL DE UM ILUSTRE CIDADÃO

"Pela manhã, Tadeu dirige um 4x4 por uma estrada vicinal. Ao seu lado, o pai e no banco de trás, Marcelina e Katinha. - "Filho, no fim desta estrada, fica o antigo cemitério. Você se lembra, não é?" - "Me lembro vagamente, pai. Era muito novo, vim uma vez com Wagner para vê-lo treinar "motocross", mas o cemitério estava desativado. Havia apenas alguns arbustos, algumas capelinhas quebradas e muitas lombadas". Marcelina interfere. - "Por quê você acha que o seu cativeiro foi no antigo cemitério?" - "Não sei, Marcelina. Talvez tenha ouvido alguém mencionar ou tenha cismado que era aqui. Aonde eles poderiam me levar?  Fui detido na casa da Lisa e o caminho fácil seria por aqui. Não imagino outro lugar. E você, pai?" - "Você tem razão. Não há outro lugar. Não conheço nenhuma capela com cúpula. E olha que nasci aqui!"

Tadeu pára o carro e vê a paisagem do antigo cemitério. Vê-se apenas uma casa pequena, um trator de terraplenagem estacionado num barracão de madeira. - "Veja, filho, só tem aquela casa. Quer ver de perto?" - " Não, não é aqui. Tinha algumas árvores enormes ao redor da capela. Não é possível que tenham derrubado essas árvores em tão pouco tempo. Não há toras empilhadas". Katinha fala com impaciência. - "Tadeu, então vamos embora." Jorge observa a paisagem e diz com a voz irônica. - "Você notou que não há mais lombadas? Acho que alguém tomou posse dessa terra." - " De quem é esse terreno, pai?" - "Da prefeitura." - "Se estão plainando a terra, o que vai ser aqui?" - "Pelas características da terraplenagem, vai ser um canavial." Marcelina pergunta curiosamente. - "Se é um terreno municipal, não acredito que a prefeitura construa uma creche, um hospital ou um conjunto habitacional nesse fim de mundo." Ao longe, um homem sai da casa em direção ao trator. Katinha aponta o dedo. - "Olha, tem gente!" Tadeu acelera rapidamente e pára rente ao trator. - "Por favor, uma informação. O que vai ser aqui?" O homem, já sentado no assento do trator, responde laconicamente. - "Canavial". E liga a máquina. Jorge grita devido ao barulho e pergunta. - "Que é o dono dessas terras?" - "Do doutor João Jônatas." 

O FUNERAL DE UM ILUSTRE CIDADÃO

"Dois vultos caminham pela calçada e entram no terreiro. O segurança é abatido covardemente com uma violenta cotovelada e cai inconsciente. A luz da casa revela Penado, o diabo loiro que olha para o seu companheiro Sombra e gargalham cinicamente. Ao mesmo tempo, Tadeu sai da roda de capoeira e se junta à Marcelina quando ouvem a voz estridente e dominador do Sombra. - "Parem o jogo! Estou mandando!" Todos ficam inertes e surpresos com a presença dos dois ex-integrantes do grupo. O Sombra prossegue a fala. - "Queremos o Jacaré, cadê ele?" Mestre Paixão, como líder do grupo, responde com educação. - "Jacaré está viajando a serviço. Quer que lhe dê o recado?" - "Não! Quero o Jacaré, aquele cagüeta que me denunciou para a polícia junto com o Dinda!" O Mestre indaga. - "O que vocês pretendem dele?" - "A sua vida! Cagüeta não tem vez comigo! Vejam o que aconteceu com o mestre Dinda! Agora chegou a vez dele!" Paixão tenta manter a calma e responde. - "Sombra e Penado, não temos nada a ver com problemas particulares deles". - "Tem sim! Vocês são uma comunidade e todos respondem por todos. Quero o Jacaré já ou vocês responderão por ele!" Paixão se preocupa e tenta evitar o áspero diálogo. - "Espere, não queremos violência. Não foi isso a nossa orientação!". - "Foi sim! Depois descobriram a cagada e desistiram da capoeira mortal. Olhem só, nem placa tem mais". - "Não foi cagada! Foi um desenvolvimento da técnica de defesa baseada em artes marciais, só que não sabíamos que havia pessoas más intencionadas e que faziam dos golpes, uma arma para agressão gratuita". O Sombra ri com ironia e responde. - "Vocês não souberam selecionar, foram ingênuos. A minha violência não é gratuita. Tem um motivo. Pegar os cagüetas! Não tolero esse tipo de gente! Se ele não está, alguém tem que pagar por ele!" Os capoeiristas ficam alertas e começam a se afastar. - "Olhem só! Vocês estão em posição de luta. Vou escolher um para resolver a situação". Na casa, Mãe Santa assiste a discussão e pressente perigo. Pega o celular e digita. - "Polícia?" 

Um capoeirista negro, alto e forte se apresenta para representar o Jacaré. - "Pois bem, o que temos que fazer? Uma luta de verdade?" Sombra sorri. - "Até que enfim um corajoso! Tinha que ser da minha cor e até parecido com Jacaré! Muito bem representado! Fortão!" Paixão se aproxima do capoeirista. - "Nagô, deixa prá lá! Temos que resolver no diálogo. Não faça essa besteira. Para nós, a capoeira é um jogo, uma cultura". - "Mestre, Jacaré é meu amigo e eu concordei com ele e o Mestre Dinda sobre a denúncia. Eles estavam sujando o nosso nome, a nossa dignidade. Eles mataram várias pessoas com golpes violentos. Não é justo que eles fiquem soltos e façam o que bem entenderem. Nós temos regras a cumprir". Enquanto Nagô e Paixão conversam, Sombra aplica traiçoeiramente o golpe chamado benção, arremessando o pé no rosto. Nagô cai inerte e desmaia com sangue na boca. Marcelina se apressa em socorrê-lo. Tadeu, preocupado, leva a sua palma da mão em frente ao nariz para sentir a respiração. - "Marcelina, ele ainda respira. Alguém peça socorro!" Mestre Paixão, com expressão de ira, o repreende. - "Sombra! Não queremos luta! Tenha calma!" Sombra ri e responde. - "Este é meu cartão de visita! Vocês não viram nada ainda!" Logo atrás, um capoeirista tenta atacá-lo, mas Penado o bloqueia e aplica-lhe uma uma rasteira deixando oponente caído e prossegue com um chute violento na cabeça. Mestre Paixão se apavora e grita. -"Pelo amor de Orixá! Parem! Queremos paz!" Penado, sem se importar, se afasta e repentinamente, vira-se e golpeia outro adversário no rosto com meia lua fortíssima e dirige-se ao mestre e aplica-lhe uma ponteira, um chute direto no peito. Tadeu presencia a cena e corre em direção ao mestre para socorrê-lo. No meio do caminho, Penado dobra o joelho e acerta a coxa propositadamente deixando-o no chão. Sombra de repente grita. - "Penado, é esse mesmo a nossa encomenda! Pode detonar, eu cuido da mocinha." Marcelina ouve o fato das palavras se dirigirem a ela, se levanta rapidamente e se posiciona em sua defesa gingando. O Sombra, com olhar frio e satânico, prepara um golpe quando é interceptado por outro capoeirista que tenta aplicar-lhe meia lua de frente, acertar a cabeça com a parte interna do pé para dentro, mas em contragolpe rápido, é abatido com uma joelhada e um violento soco na nuca. Tadeu se levanta e ginga de cocorinha, com as mãos no chão e ao mesmo tempo, tenta se afastar para um lugar mais espaçoso. O loiro impulsiona o corpo e vira as pernas para o ar, apoia as duas mãos no chão e e gira a cabeça e o corpo como se fosse um pião. O floreio é realizado com tanta maestria que Tadeu e os membros ficam estupefatos e alguns até batem palmas. De pé, Penado avança vagarosamente e ataca com um afixiante, um golpe com a mão aberta tentando atingir o nariz. Mas Tadeu se esquiva com um passo para trás e dá um ligeiro galopante, um tapa violento na orelha e se afasta protegendo o rosto. Ao redor, os capoeristas cercam os dois combatentes. O diabo loiro, com expressão de ódio, se manifesta. - "Você escreveu a sua sentença de morte! Vai apanhar aos poucos." Tadeu fica concentrado sem dar ouvidos às palavras do adversário, mas sim, preocupado com a Marcelina. Ela, por sua vez, realiza esquivas rápidas sem agressão. O Sombra, exausto de tantos golpes perdidos, começa a desferir benção e chapa giratória, rodando o corpo para atacar com a perna esticada coiceando com o pé atordoadamente até cercar a garota debaixo do pé de mangueira.  Marcelina, encostada no tronco da árvore, sente na altura da nuca, o prego enferrujado e fica temerosa. O Sombra, ao vê-la encurralada, diz. - "Menina, meninha, é o seu fim. O seu nome é Marcelina, não é?" Afoitamente, ela responde ofegante. - "Por quê quer me agredir?" - "Agredir? Vou te matar! Você e Tadeu são pacotes encomendados e não me pergunte o por quê." De repente, a sirene da polícia soa ao longe e cada vez mais próximo. Tadeu fica esperançoso e vai se esquivando de uma infinidade de golpes com auxílio dos capoeiristas que fazem revezamento a fim de retardar os golpes do loiro. Marcelina respira aliviada com a sirene, mas o oponente, com seu olhar de ódio, espreme a boca, cospe e sem perda de tempo, aplica o golpe martelo, chute direto com a planta do pé em direção ao rosto da garota. Com uma esquiva lateral rápida, a menina vê a perna passar rente ao seu rosto e ir de encontro ao prego da mangueira e perfurar pé ultrapassando até a parte  superior. Um grito de dor e agonia paira no ar. Marcelina, corre em auxílio ao seu namorado, mas se acalma quando vê os capoeiristas cercando o diabo loiro acertando vários golpes e chutes. De repente, surgem os PMs e o capitão gritando. - "Parado! Ninguém se mexa senão leva chumbo!" No meio deles, um homem jovem, distinto, semblante de advogado, de terno e óculos, grita. - "Nada de violência! Sou promotor público! Todos quietos! Não quero ninguém ferido! Nada de tiros!" Todos páram e ouvem. - "Quero explicações corretas! Então, quem começa? Por quê essa briga violenta?" Um silêncio e alguns sussurros. Mestre Paixão, mesmo caído, inicia a explicar. - "Doutor, esse aqui, o loiro e aquele que está com o pé enfincado no prego são os responsáveis. Eles invadiram a nossa área e tumultuaram o nosso jogo de capoeira." - "Está bem. Já temos como começar. Você, loiro, defenda-se. Você está sendo acusado." De repente, o diabo loiro salta do meio da turba e pula com os dois pés no promotor na altura do tórax deixando-o caído. O capitão, sem vacilar, efetua vários disparos com sua pistola acertando fatalmente no corpo do Penado. O Sombra, assistindo à morte de seu companheiro, desvencilha-se do prego, mesmo ferido e manco, avança em direção ao capitão que está de costas. Os outros policiais tentam impedir a agressão sem o uso da arma, mas são abatidos facilmente pelos golpes fortíssimos. O promotor se recupera e sente perigo iminente, e mesmo deitado, dispara um tiro certeiro no peito do Sombra, justamente no momento em que o capitão era derrubado com uma violenta cotovelada e fortíssimos chutes no corpo.

- "Pessoal, não tive alternativas. Sou contra porte de armas, mas sou favorável ao uso em defesa própria. Não quero justificar a minha conduta desta noite. Estou à disposição de vocês, caso queiram denunciar esse meu ato violento, por favor, podem comunicar à corregedoria e quem for, por favor, levem testemunhas. Vou me apresentar. Sou o novo promotor público. O meu nome é Everson Pontes. O policial Castro está anotando depoimentos e convocando testemunhas, por favor, colaborem. Estou acompanhando a polícia para sentir a situação desta cidade. É um estágio por conta própria e comecei hoje e logo entrei, como se diz na gíria, "pelos canos". Os feridos, por favor aguardem que o socorro médico estará aqui em instantes. Obrigado. boa noite." O jovem promotor se dirige até a torneira da lavanderia e lava as escoriações no rosto. No canto, Tadeu e Marcelina comentam enquanto servem água para os feridos. - "Parece que esse homem é honesto."

O FUNERAL DE UM ILUSTRE CIDADÃO

- "Filho, por quê você não denunciou o seu seqüestro? Essa capela que você diz foi demolida há tempos. Não é possível que ainda exista e ainda ter equipamentos incineradores no subsolo. Nunca ouvi falar nisso!" - "Eu estive lá, pai, em carne e osso!". - "Talvez em outra cidade ou em algum outro lugar. Essa capela era grande?". - "Talvez tamanho de um casebre. Tinha uma cozinha, talvez um quarto e sala onde estava o altar". - "Tadeu, então era uma casa. Por que você achou que não era uma casa?" - "Porque o teto parecia uma cúpula de uma igreja e tinha pinturas da última ceia de Cristo". - "É, talvez seja uma capelinha particular". - "Aonde me encontraram naquele dia quando estive inconsciente?" - "Você estava caído quase na beira da estrada. Creio que você deve ter caminhado um bocado porque estava bem distante do antigo cemitério. E tem outra, se houvesse essa capela como ponto de torturas e incineração de corpos, Wagner me avisaria. Ele é contra esse tipo de coisa". - "Tem razão, pai. E ainda não fui à delegacia porque preciso ter certeza de que foi real. Não creio que tenha sido pesadelo. E vou te contar uma coisa pai, eu vi uma cena que me impressionou. Estava tão apavorado com os acontecimentos que precisei repousar ao lado da capela, quando subitamente, ouvi uma voz estranha que parecia me chamar em sussurros e espiei por uma pequena fresta da janela. O interior estava escuro e não consegui identificar a imagem, mas parecia um vulto, um ser se movimentando. E um ruído quase silencioso, apavorante que não sei definir!" - "O que você viu Tadeu? Tem que ser alguém! Ou era algum animal?" - "Parecia um ser vivo, virou-se rapidamente como se eu o tivesse chamado. Foi um flashe muito rápido. Pensei naquele momento que fosse um ladrão de imagens porque a estátua de um anjo não estava mais lá". - "Poderia ser, filho, hoje em dia, peças sacras valem uma fortuna. Você não vai me dizer que acredita em anjos?" De repente, Katinha grita que o jantar está pronto. - "Depois continuamos pai". - "Está bem. Amanhã mostro aonde era o antigo cemitério, combinado?". - "Combinado". Tadeu vai até o quarto de hóspedes e vê Marcelina cochilando na poltrona e o caderno de anotações no chão. - "Marcelina, vamos jantar?" A garota acorda exausta como se estivesse voltando de uma longa viagem.

O carro estaciona em frente a uma casa antiga. Os tambores ressoam fortemente vindo dos fundos. O segurança o reconhece e pede para sentar-se na sala e Tadeu observa os detalhes caminhando em direção à janela da cozinha . - "Não mudou quase nada, Marcelina. Somente as pessoas. O tempo passa. Vem cá, Marcelina". Pela janela vê-se a uma pequena casa, também velha. - "Marcelina, você já freqüentou Candomblé?" - "Já. Freqüentei umbanda, quimbanda e outras culturas religiosas. Adoro pesquisas. São objetos dos meus estudos. E aquela casinha é o quarto de santo." Pela janela, Tadeu vê movimentação e se manifesta. - "Lá está o Mestre Paixão no atabaque". - "E aquela é a Mãe Santa, a Ialorixá." - " É a mulher do falecido Mestre Dinda. Parece que ela está em transe." - "Tadeu, vamos parar de bisbilhotar. O ritual é só para a pessoa que inicia lâos, uma espécie de batismo. Não é fácil. Ela deve ter ficado mais de 20 dias no retiro espiritual para se dedicar a esse momento e aos ritos de passagem." - "Está bem. Vejo que você sabe. Vamos lá fora? Ficamos debaixo do pé de manga." - "Tem manga?" - "Não, não é época mas tenho saudade disso aqui. Debaixo da mangueira havia uma placa que eu desenhei. Vamos ver se está lá ainda". Os dois ficam decepcionados com a ausência da placa de dois capoeiristas que se confrontam. - "Marcelina, acho que a placa envelheceu e a tiraram daqui. Veja, só tem esse prego enfincado". - "Não é melhor retirar esse prego? Está sem a cabeça e enferrujada. Pode causar acidente". - "Eu aviso para alguém depois". 

Após o ritual, já tarde da noite, os capoeiristas começam a chegar e se acomodam na sala. Enquanto Marcelina conversa com Mestre Paixão, Tadeu abraça carinhosamente a Mãe Santa. - "Sinto muito pelo Mestre Dinda'. - "Tadeu, todos, um dia, sem exceção, teremos que partir. Orixá espera que usufruamos a vida da melhor maneira possível aqui na terra."   

Ao som do berimbau e atabaques, os capoeiristas jogam sob o comando do Mestre Paixão. Marcelina participa com maestria e muita elasticidade nos movimentos de meia-lua, chapa de frente e escorpião. Mestre Paixão comenta com Tadeu. - "Ela é ótima! Parece de circo. É essa que pratica lutas marciais?" - "É. E treina quase sempre, além de freqüentar faculdade, ser voluntária em comunidades e ainda consegue namorar e viajar comigo." - "Ela criou as suas próprias regras disciplinares e se tornou uma ótima administradora de seu tempo, Tadeu. Eu tenho orgulho da minha raça quando conheço uma pessoa assim. Você está em boas mãos".

 

O FUNERAL DE UM ILUSTRE CIDADÃO

" - "Tadeu, Marcelina está aqui". - "Obrigado, DONI. Vou até a fazenda para rever o pessoal". - "Não se preocupe em contar histórias. Enviei um relatório diário via e-mail para Katinha. Eles estão a par do seu estado de saúde. Você está ótimo, mas evite esforço". Marcelina se apresenta e os dois se abraçam e beijam e dirigem-se ao hotel, banham-se rapidamente e retornam à rua. No carro, Tadeu, senta-se no lado do passageiro e inicia a conversa enquanto a garota acelera.  - "Marcelina, obrigado por confortar o meu pessoal". - "Não diga mais nada. A sua família é incrível. Estou pesquisando e aprendendo muito por aqui, uma aventura. Nunca imaginei que houvesse tantos problemas numa cidade tão simples, simpática e limpa. Só preciso de um lugar para o meu condicionamento fisico. Sinto falta". - " Você pode utilizar a academia de Jiu-Jitsu ou praticar capoeira no terreiro do Mestre Dinda que faleceu uns dias atrás. É só falar com Mestre Paixão". - "Você pode me indicar? É só por uns dias. As férias estão acabando. Prefiro a capoeira!" - "É lá no centro. Eu levo você até lá. É no fundo de quintal e é após a cerimonia de Candomblé da Mãe Santa". Tadeu dá uma pausa, olha a paisagem e pensativo, retorna os olhos para a namorada e pergunta engolindo saliva. - " A propósito, Marcelina, mudando de assunto, qual é a sua visão desta cidade como pesquisadora de causas sociais, qual o seu critério a respeito da violência por aqui? Gostaria de saber com os olhos dos outros."  Marcelina perde a sua vista para a imensa paisagem, retruca enquanto dirige. - "Violência. Estamos passando por ela e vem de repente, de surpresa, em que o Homem às vezes não consegue conter e é obrigado a participar. Aqui, as autoridades perderam a noção do bom senso tentando a todo o custo, camuflar a miséria eliminando os pobres, pessoas deficientes e conter todas as imperfeições através da força criando até uma polícia paralela que também se perdeu". - "Eu sei, mas digo, a violência social, como ela nasce no seu ponto de vista". A garota dirige e aperta os lábios e responde. - "Não nasce. Ela, para mim, é produzida pelo Homem, principalmente quando o poder público se torna imperativo, descomunal e egocêntrico esquecendo partes mais prioritárias. Se a violência nascesse, teríamos que abortá-la o mais rápido possível". - "Como diz o velho ditado, perto dos olhos de Deus porém, longe dos olhos do povo". - "Ou, longe dos olhos de Deus e perto da cegueira do Homem, Tadeu. Mas a miséria e a falta de escolaridade é maior violência do Homem e há conseqüências. Vou contar um caso comum. Certa vez, fizemos um trabalho de grupo a respeito. Foi muito difícil tirar uma conclusão porque houve muitas controvérsias". - "É bom porque gera debates." - "Mas é um debate sem fim, Tadeu. Cada pessoa pensa diferente e tem os seus detalhes. No meu caso, apresentei o trabalho para o grupo baseado numa carta que recebi quando fazia pesquisa numa favela. Achei que nada seria melhor do que uma pessoa da comunidade emitir o seu ponto de vista. Ela, mãe de um criminoso escreveu-me uma carta". - Ela sabia escrever uma carta?" - "Sim, um pouco ela sabia e por esse esforço, dei-lhe atenção especial. O importante era captar a sua opinião, pois experiência ela tinha de sobra". - "Então faça um resumo dessa carta". - "Lembro-me como se fosse ontem, Tadeu". - "Então me conte." - "Está bem. Ela é ainda hoje, diarista, mãe solteira e tem um filho preso por assassinato. Ela escreveu na carta sobre as dificuldades em criar um filho num bairro onde, na época, não havia creches em tempo integral". Tadeu se manifesta. - "Tem, mas não o suficiente, principalmente em bairros periféricos". - "Exato. E é num desses bairros que ela reside. Ela se chocou quando viu a imagem do filho estampada nas primeiras páginas dos jornais. Eu a conheci na comunidade do bairro e me deu uma carta como se fosse uma justificativa do crime. Não sei porque ela me escolheu". - "Talvez ela tenha notado a sua descendência afro". - "Talvez, pois ela é descendente e pediu-me para ler antes de enviar aos jornais". - "Ou talvez ela não estivesse segura sobre o assunto". - "Não Tadeu. Ela estava segura. Ela tinha receio de aparecer na mídia, de se tornar estigmatizada. Conversamos e contou a história de seu filho, não diferente de tantos outros garotos da periferia". - "Geralmente as histórias são semelhentes. Continue". - "Lembro-me da sua voz fraca e aparência sofrida, mas firme ao falar. Disse-me que seu filho não fora mimado, muito pelo contrário, dera amor e carinho nas poucas horas da noite e cada erro seu, punia com um misto de diálogo e bronca, sem violência, no máximo, um puxão de orelha. O maior problema, fora no início de sua vida. Não havia creches e fôra obrigada a deixar com conhecidas enquanto ela trabalhava. Ela suspeitava que algumas de suas amigas o levava para o centro da cidade para esmolar". - "É muito comum hoje em dia. Tem pais que alugam os bebês para essas pedintes". - "Sim, inclusive há uma pessoa na comunidade. Conversei com ela a respeito e ela reclamou também da creche. São as mesmas razões. Elas necessitam de trabalhar mas não conseguem. A mulher foi categórica em afirmar que em parte, era a culpada por ter tido filho precocemente". Tadeu interrompe. - "Acontece também na classe média. Falta de pai também, geralmente o pai foge das responsabildades. E há mães também que acabam abandonando as crianças numa caçamba, num portão de uma casa e até nos sacos de lixo". - "Começa por aí. Todas as mães precoces possuem esses problemas. Continuando, as dificuldades dessa mãe começaram com os 12 anos do menino, uma idade que começa a entender o que é o consumo através da mídia. O jovem se fascina com as  melhores marcas de tênis, camiseta, bonés e celulares, um tormento para uma mãe que é diarista e tem dificuldades pagar a conta de luz e água. Ela admitiu que num Natal, sacrificou uma parte da alimentação em favor desses objetos, preço de quase 15 dias de trabalho suado e aproveitava a ocasião para explicar das dificuldades de sobrevivência e tinha sempre a difícil missão de dizer a palavra não para o único filho". - "Vítima da sociedade de consumo, aliás, todos nós somos. Imagine se ela tivesse mais filhos, Marcelina". - "Normalmente, na comunidade, a maioria têm 3 filhos e mais o marido desempregado vivendo de "bico" e ainda por cima, em alguns casos, alcoolizado. E quando há creches, o problema se agrava no mês das férias escolares. Os funcionários públicos gozam férias e as mães são obrigadas também a faltar em serviços. E tudo tem a sua conseqüência: são demitidas". - " As creches não deveriam fechar nunca. As férias dos funcionários poderiam ser alternadas, Marcelina, ou melhor, divididas". - "Ou contratar serviços de terceiros nas folgas dos funcionários. As creches e escolas fundamentais poderiam adotar um sistema de escolas-clubes não é Tadeu?" - "Sim, mas tem que ser bem planejado. No caso de falta de um professor, ter um serviço terceirizado para substituí-lo". - "Concordo. Essas escolas clubes não poderiam fechar nem aos domingos e principalmente nos feriados. Poderiam ter aulas de instrumentos musicais, de matemática com professores terceirizados de plantão, campeonatos esportivos, escotismo, cinema, teatro, circo e afins. Eu sei, o encargo é muito grande para o governo, mas é uma grande solução para o futuro. E poderia utilizar a mão de obra da própria população do bairro". - "Então, continue a história do menino, Marcelina". - " Aos 14, teve enormes dificuldades escolares por seu comportamento hiperativo e informou à mãe da sua desistência na escola. Ele não tinha afinidade com os estudos. Foi um choque e a situação ficou insustentável e alternativa foi optar pelo trabalho ou realizar o sonho de ser jogador de futebol e assim, a primeira frustração, o futebol não era tão fácil como ele supunha. O primeiro emprego foi fácil, o que o fez  recuperar a sua estima. Após alguns meses, a empresa que o empregara foi autuado pela fiscalização denunciado por uma entidade do menor". - "Vítima do poder público. O trabalho do menor é permitido após a idade de 16 anos, Marcelina". - " Eu sei. Só que a lacuna é muito grande. Dos 14 aos 16 é uma fase difícil, é a adolescência em plena transformação tanto no corpo quanto na mente. E a partir dos 16, as empresas já o rejeitavam, por estar próximo ao alistamento militar. Frustrado, teve que esperar até aos 18, mas nesse intervalo de 2 anos, conheceu amizades alternativas, muitas de sua infância, o que mudou o seu comportamento, levando por água abaixo, toda a educação dada pela sua mãe. E a sede de consumo, a sede de ter sucesso com as meninas e sem perspectiva para o futuro o levou a trilhar por um caminho do crime, a sua hiperatividade e sua provável deficiência de atenção o levou ao primeiro homicídio e a primeira prisão. A vida mal começara e estava se afundando. Durante a sua convalescência, Tadeu, conversei com a doutora Silvia. É improvável, mas ela me afirmou que no cérebro humano, assim como há parte do cérebro que luta pela sobrevivência, há também uma parte obscura, um ponto no cérebro que se acionado por elementos químicos misturados com hormônios, no caso do alcóol, drogas, remédios e até pelos que dão sensação de prazer, leva a pessoa a auto-destruição, no caso, ao vício e à alimentação excessiva. Seria uma pequena disfunção ou falta de produção de serotonina. E a longo prazo, leva à incapacidade de julgamento moral e ético". - "Por isso que os três, com o DONI, é claro, estão mapeando o cérebro para descobrir essa parte desconhecida e bloquear esse ponto ou injetar uma substância reguladora, mas é muito cedo para tirar conclusões objetivas". - "Ainda estou cética, mas tudo é possível hoje em dia, mas os psicólogos, educadores e sociólogos não irão permitir o uso dessa técnica". - "Eles serão contra. É uma invasão de privacidade acima do limite. Mas não custa pesquisar, pois é necessário conhecer tudo que a natureza nos oferece. Poderia haver uma solução para essa juventude ser feliz seguindo as regras da sociedade. Ou seria uma felicidade produzida, artificial? Então, Marcelina, continuemos. Pela sua história, o seu ponto de vista é a desocupação excessiva na idade dos 14 aos 18, no caso dos meninos. No caso das meninas, o problema é menor porque não há obrigação de alistamento militar. Nesse caso, o exército deveria recrutar apenas os voluntários". - "Sim Tadeu. E o trabalho do menor poderia iniciar aos 14 anos com carga de horário de 6 horas. Há muitas meninas que nessa idade, engravidam. O trabalho poderia amadurecer a juventude". - " E a controvérsia?" - "O ponto de colisão foi a idade mesmo. Para a maioria, 16 anos é a ideal, o que não concordo. O meu pai começou a trabalhar com 14 e hoje é um empresário bem sucedido e é um afro-descendente. A minha mãe é considerada branca, mas é filha de uma mulata e iniciou o trabalho aos 15, estudou à noite e hoje é formada em Ciências Contábeis".  - "Você vai defender essa tese até o fim?" - "Vou". - "Estamos chegando em casa. Veja, o pessoal está nos esperando".  Vê-se na entrada, toda a família acenando.

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